Arquivo | novembro, 2010

A brevidade da vida e você

20 nov

“Não vivemos apenas em nosso próprio tempo. Carregamos conosco também a nossa história. Não se esqueça de que tudo o que você está vendo hoje aqui já foi novinho em folha um dia. Esta pequena boneca de madeira do século XVI, por exemplo, talvez tenha sido feita para a festa de quinze anos de uma garota. E talvez tenha sido feita por seu avô já bem velho… Depois a garota virou uma adolescente, cresceu e se casou. E talvez ela própria tenha tido uma filha, que herdou esta boneca. Depois ela foi ficando velha, até que deixou de existir.
É possível que ela tenha vivido uma longa vida, mas agora não existe mais. E nunca mais vai voltar. No fundo, ela apenas fez uma breve visita à Terra. Sua boneca, porém… esta sim está bem sentadinha ali na estante.
– Colocando a coisa desse jeito, tudo ganha um ar triste e solene.
– Mas a vida é triste e solene. Somos deixados num mundo maravilhoso, encontramo-nos aqui com outras pessoas, somos apresentados uns aos outros e caminhamos juntos durante algum tempo. Depois nos separamos e desaparecemos tão rápida e inexplicavelmente quanto surgimos.”

página 214, O MUNDO DE SOFIA – JOSTEIN GAARDER

 

 

 

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Saudade e mais saudade

13 nov

Saudade de quando com dois reais eu me sentia rico. Saudade de quando eu não precisava me preocupar com os problemas da vida. Saudade de quando não havia espinhas. Saudade de quando o triângulo era apenas uma figura e não um monte de cálculos. Saudade de chegar em casa e não precisar me preocupar com infinitas lições. Saudade de quando o mundo parecia inocente. Saudade de quando vários medos bobos me assombravam todos os dias. Saudade de quando os trovões pareciam querer derrubar o mundo. Saudade de brincar na areia, do enterrar bonecos. Saudade dos tantos peixinhos ganhados da escola. Saudade de brincar de esconde-esconde. Saudade do passar o dia na piscina apenas brincando. Saudade de quando não havia a distinção entre certo e errado. Saudade de brincar, observar e judiar das formigas. Saudade de quando qualquer ato era uma felicidade e não um motivo de chacota. Saudade do saber dançar sem vergonha. Saudade de quando o mundo parecia um paraíso.

Saudade de quando o quarto parecia um espaço sem fim. Saudade do andar de bicicleta com o irmão. Saudade de quando as filas eram sinônimos para mais tempo para brincar e não de dores de cabeça. Saudade de quando não tinha conhecimento da hipocrisia do mundo. Saudade de comprar balas e salgadinhos e me sentir super alegre como se fossem ouro e não comprá-los apenas por gula. Saudade de quando dez reais pareciam cem. Saudade de quando achava que tudo duraria para sempre. Saudade do deitar no colo da mãe pra dormir. Saudade do sentir medo e ir dormir com os pais. Saudade de quando as pessoas pareciam realmente encantadoras. Saudade de promessas aparentemente sinceras. Saudade do não ver o tempo passar. Saudade do pensar em não estar sendo tragado pelo mundo. Saudade do não precisar nem saber procrastinar. Saudade da infância, do passado, de tudo. De você.

 

 

 

Ainda vai se concretizar

7 nov

Você no meu aniversário. Eu no seu aniversário.
Comemorações de natal. Virada de Ano Novo.
Presentes, abraços, sentimentos, sem distância, sem saudade.
Assuntos legais, idiotas, fúteis, inúteis, um tanto obsceno, um tanto vulgar.
Conversas e risadas juntos, sem ninguém pra interferir.
O dizer “eu te amo” pessoalmente, não por telefone, não por internet. Olhando um na cara do outro, sem medo, sem vergonha.
O dizer “parabéns pra você” pessoalmente também, com um abraço, com um presente.
Ah, essa saudade que me consome e me deixa com vontade de chorar.
Tudo isso algum dia vai se concretizar, e eu vou poder falar na sua cara sem medo “Parabéns, eu te amo”.

Mayumi Abekawa

Dezoito

2 nov

Dezoito folhas embaixo da cama
Dezoito reflexos da chama
Dezoito objetos no armário
Dezoito voltas do ventilador

Dezoito carros em uma fila de trânsito
Dezoito pessoas na fila do banco
Dezoito páginas rasgadas da revista
Dezoito mil fios de cabelo
Dezoito livros de filosofia

Dezoito vezes dois é trinta e seis
Dezoito horas é as seis
Dezoito quilos mais trinta e três eu peso
Dezoito pedidos eu tenho

Dezoito melhores amigos eu não tenho
Dezoito objetos queridos, porém eu tenho
Dezoito linhas tentei escrever
Dezoito anos estou à desaparecer
Dezoito anos chegou tão rápido, que sequer parei um segundo pra pensar.