Arquivo | janeiro, 2011

Altas Horas Perdidas

28 jan

Como se eu desse tanta importância por eu estar nessa situação em que me encontro. Você deve estar se perguntando ao que estou me referindo. Fisicamente eu até diria que estou bem. Corpo cuidado, lavado e cheirosinho. Espiritualmente é que não está nessa situação. O por quê? Faço-te essa pergunta também. Talvez seja por causa dos anos vividos e a podridão neles contidos. Podridão que talvez você não entenda. Pelo menos eu acho que não entende. Hoje em dia tudo é tão precoce. Você é precoce, meu bem. Foder com a vida também o é.

Se eu me sinto ruim por estar do jeito que estou? Já disse que não, caralho. Meus conhecidos que estão naquele barzinho decrépito ali são melhores do que você, queridinho. Melhores que os seus amiguinhos playboys que são loucos pra bater em prostituta ou em travesti ou em qualquer bicha que anda nas ruas durante a madrugada. Esses riquinhos ordinários que não tem nem dezoito anos e vem querendo bater ou comer qualquer buceta ou cuzinho disponível. Só pagar, trepar e pronto. Fácil, fácil. Trepar é feio? Fazer amor está bom pra você? E se bobear alguns desses panacas aí que se auto-afirmam super heterossexuais estão doidinhos pra levar uma dedada, mas isso não vem ao caso.

Sabe por que eu acho que aquele meu pessoal é melhor que o seu? Porque não estamos tão entrelaçados nessa bosta que você vive. Não entendeu? Quer que eu desenhe? Olha bem para o que está em sua volta, bem estampado na tua cara, querido. Está tudo em frente aos seus olhos e você com a sua turma não notam porcaria nenhuma. Sabe por quê? Porque é tudo cambada de iludido e folgado. Estão satisfeitos com o que tem e não querem mover um dedo sequer, muito menos um pêlo do seu orifício moribundo. Ai, já sei, não sabe do que estou falando. Mas é bobinho ainda coitado. Tão inocente e tão novo. Você é bem bonitinho até, mas é muito burro. Tem muito a aprender com esse mundo, com essa sociedade.

Quero acender um cigarro, me dê um minuto. Estou sendo mal educada? Me desculpa. Então, aceita um? Ah, sua mãe não deixa você fumar? Está certo, é melhor pra você, se não quiser ficar com um pulmão podre como o meu. Podre igual a escuridão dessa noite, está vendo? O cheiro de mijo na rua, os ratos andando nas ruas como se fossem gente e aqueles corpos caídos ali, que daqui algumas horas se levantarão pra perambular pelas ruas e serem discriminados pelas pessoas. Mas voltando ao assunto, eu sei que não tem volta. Estou condenada pelo vício nesse sedativo que me acalma a cada vez que dou uma tragada. Mas não fique tão tranqüilo, você está condenado do mesmo jeito que eu, só que a única diferença é que o que te condena é a corrosão pelo tempo. Sim, você vai ficar velho e vai querer fugir disso. Claro né, todo mundo quer ficar jovem e belo pela vida inteira. Ficar velho e inútil é o mesmo que ser um nada pra essa bosta em que vivemos. Aliás, eu existo. Você existe. Somos pedaços de carne em movimento, mas pra você existir, basta ter a porra de um papel verde porque se você não o tem, não existe. Admito que às vezes me sinto totalmente inútil diante desse pedaço de papel. Acabei perdendo o meu. Estou pouco me fudendo pra isso, porque dá muito trabalho pra providenciar outro. Você está falando com um ninguém, cuidado. Ninguém mesmo, muita gente me considera uma indigente. Exceto pessoas como você, que vem atrás sem chamar. Sem contar que tenho que gastar uma graninha pra conseguir fazê-lo novamente e você sabe muito bem como eu consigo uma graninha, não é? Só ter um corpo gostoso e malhado como uma Angelina Jolie e ficar quase nua na rua que qualquer carro pára pra te cantar. Aliás, nem precisa ter um corpo esbelto, porque olha só pra mim. Estou mais pra um pedaço de pau seco, mas mesmo assim consigo grana. Olha para aquelas minhas amigas barangas ali também, tudo graveto sem peito, sem bunda. Não precisa ter peito ou bunda grande, é só ter uma xana que qualquer macho vem querendo pagar.

Contei muita coisa né? O que você veio fazer aqui mesmo? Ah, veio querer pagar pra perder a inocência do seu caralhinho? Quantos anos você tem? Quinze? Nossa, bem novinho mesmo. Sabe, eu até treparia com você, ou até mesmo pagaria pra dar uma boa transa, mas eu não quero. Você pode pegar qualquer garotinha da sua idade louca pra dar. Na escola tem de monte, é só você abrir os olhos que encontra. Se eu já cheirei? Claro, comecei aos treze anos. Meus pais não viviam em casa e eu era louca pra ir a festas com gente bonita, daí me ofereceram e pensei que conseguiria parar por vontade própria, porém, na verdade não é bem assim. Hoje estou mais light com o assunto, mas uma época além de cheirar eu necessitava de umas três picadas por dia, sim. Perdi a inocência com uns quinze também, que coincidência não é? Perdi por causa do vício, necessitava de grana. Conheci meu primeiro namorado no ponto também. Era um puto, literalmente. Se ele fodia com as mulheres? Muito. Até eu terminar com ele porque o flagrei fodendo com um cara. Daí acabei mudando de concepção sobre o que existe em nossa volta. Tudo o que parece não é. Aprenda isso, meu querido.

Falei demais, mas você entendeu por que espiritualmente estou ruim? Não? Que adianta ter um rostinho bonito e ser tão burro desse jeito. Deus meu! Vai embora pra tua casa e reflita, honey. Olha o que está em sua volta, para aqueles vagabundos naquele bar, para as pessoas em sua volta, tudo. Eu disse t-u-d-o. Seu dia a dia, sua vida, sua casa, seu bairro, sua cidade, seu estado, seu país. O mundo, caralho. Acho melhor parar de pensar que a vida é só trepar, gozar e amar. Não, não é. Se bem que amar também às vezes dói demasiadamente. Mas acabei me esquecendo, você é bem novinho, little boy.

Aliás, preciso ir embora porque já está amanhecendo. Preciso me recolher nas sombras do dia pra recuperar o tempo perdido, ficar nas entrelinhas disso que a gente vive, na minha recôndita vida. Perdi a madrugada e dinheiro por causa de você. Vou embora a pé, e você? Ah é, você tem o carro do teu pai emprestado. Não disse? Tudo muito precoce hoje em dia, meu querido. Isso chega a me deixar enojada.

Tanto tempo conversando e nem nos apresentamos. Seu nome, please? Rafael? Prazer, o meu é Raquel.

***

Mas espiritualmente pode me chamar de realidade também.

Aquela que você paga, consome, trepa, se ilude e se fode. Talvez se apaixona ou desenvolve uma DST e acaba se auto-corroendo aos poucos. Tudo isso em um breve instante. O breve instante que se chama vida. Dentro disso não há questionamentos, nem tempo pra nada. Apenas uma movimentação automática pelo cotidiano. O tempo te deixa com rugas, você fica inútil e depois o corpo em lenta decomposição é abraçado por aquele sono que ninguém que ter. Aquele sono eterno chamado morte. A partir de então, você é descartado da multidão como se fosse uma bolinha de papel amassada. Simples e fácil.

O que a vida não é conosco.

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Essência de Plotino

21 jan

Ônibus são lugares estressantes.
Na maioria das vezes estão lotados.

Pessoas com um perfume levemente adocicado que quando passam por perto o respirar fica mais intenso, querendo sugá-lo todo para dentro do organismo. Existem aquelas moças com cabelos cheirosos, cremes com odor frutífero artificial que às vezes são de bom agrado. Às vezes.
Mas todos esses cheiros são quase raros de se presenciar em um ônibus parcialmente lotado. O cheiro impregnado nas pessoas do horário do almoço ou do pós-trabalho é quem são constantes.

Tão constantes que deixam aquele garoto entediado. Dono de cabelos castanhos, curtos e levemente arrepiados com um laquê de cheiro forte, ele esbanja uma individualidade tremenda no banco que está sentado. Tem uma pele queimada pelo sol, com algumas espinhas. Traja uma camiseta vermelha lisa. Barba por fazer. E por trás daqueles óculos, estão os olhos de uma cor indefinida. Azul. Verde. Talvez uma mistura de ambos.

Fones de ouvido. Segura um livro nas mãos. Parece estar concentrado na leitura, ignorando todas as pessoas em sua volta. Talvez não queira sentir o calor humano perto de si, nem se lembrar que está dentro de um ambiente quase fechado.

Ultrapassa a barreira do real e da ficção e acaba mergulhando na história do livro. Ele se vê naquele imenso jardim coberto por uma grama de verde límpido. Macieiras quase pintadas com o vermelho intenso das frutas. Os pássaros assoviam uma canção, tornando-se uma uníssona simetria sonora. Havia também o céu rabiscado por um azul claro com nuvens tomando suas formas indefinidas. Sente cheiro de terra molhada. O ar quente do asfalto parece fundir-se com o odor da terra. Está garoando. Sente-se tranqüilo. Diante de tudo isso, deseja deitar-se naquele lugar. Quer dormir.

Olhos fechados. Livro semi-aberto com os dedos marcando as páginas. A cabeça pende para o lado da janela. Dorme feito defunto. A expressão do rapaz é engraçada de se ver. Parece não se preocupar com toda a porra do mundo. Está tranqüilo, tranqüilo.
O ônibus breca. Ele acorda assustado. Olha para os lados, guarda o livro na mochila que está sobre o colo e suspira fundo. Novos passageiros estão entrando no veículo. “Mais gente fedida”, pensa.

Sente o coração acelerar em poucos segundos. Cabelos longos e loiros escorridos pelas costas. Alta. Possui os lábios de mel, como os de Iracema. As maçãs do rosto têm um tom rosado claro. Veste branco, o que faz a pele reluzir ainda mais. Os olhos de cigana oblíqua e dissimulada como os de Capitu. Negros. Provocantes e intensos. Levaria qualquer homem ao delírio, talvez.

Tem o andar delicado como bailarina. Fino, leve e preciso. Desfila naturalmente no corredor do ônibus. Os homens presentes no veículo torcem o pescoço para admirar a beleza daquela garota. O menino também a admira, porém não há necessidade de se contorcer. Ela vai até perto dele. E fica lá, em pé ao seu lado. Distraída, olha pela janela. Parece não notar os olhares cheios de cobiças direcionados ao seu corpo carnudo.

Ele sente o cheiro da moça impregnar-se em suas narinas. Cheiro doce. Cheiro de pele macia; de cabelo cuidado. Cheiro bom, gostoso. Tenta disfarçar para não ficar admirando diretamente a beleza da moça. Afinal, ela estava ali, perto de si. Queria respeitá-la. Os pés finos e pequenos, calçados com uma sandália branca pareciam frágeis e leves como pena. Linda e pura.

Sentiu-se sufocado durante vinte minutos. Não sabia o que fazer. O livro guardado não lhe interessava mais. O cheiro das pessoas desapareceu do ambiente. Perdeu o sono. Não queria mais se fundir ao sonho que teve. Queria viver aquele momento pra sempre.

A presença da garota lhe incomodava de certa forma. Queria admirá-la, tê-la para si. “Qual seu nome, telefone e endereço?” gostaria de perguntar. Queria abraçá-la, tocar aquela pele branca pálida na sua. Sentir a cintura fina da garota em suas mãos. Queria dominá-la. Queria amá-la. Amá-la até enjoar. O que seria difícil com toda aquela sua beleza e graciosidade. O jeito distraído da garota lhe causava uma sensação indescritível. Simplicidade e beleza fundidas em um único corpo. Corpo aparentemente quente e frágil. Delicado ao extremo. Delicado como vidro fino e facilmente quebrável. Realmente, deveras sensível. Um toque qualquer seria capaz de machucá-la formando carne viva. Palavras pronunciadas com brutalidade desmanchá-la-iam em mil pedaços.

Vinte minutos passados, a garota se movimenta até a porta de saída do veículo. Os olhares cobiçosos ainda a acompanham. Desce vagarosamente os degraus e retoma a sua caminhada. Continua a desfilar delicadamente sobre aquela rua cheia de buracos. Mesmo assim, esbanja toda a sua beleza quase morta. O ônibus inteiro parece acompanhar seu andar fino e leve. Ela desaparece da vista de todos. Dos homens tarados, das mulheres invejosas, dos curiosos de plantão. Do garoto do livro. Do garoto que queria tê-la para si. Daquele que queria amá-la. Amá-la até enjoar.

O amor platônico e momentâneo no ônibus é tão comum quanto respirar.

É inevitável.

 

 

 

Praça Contraditória

14 jan

Estava toda vestida anormalmente em vista da sociedade. Meia calça toda rasgada, all star vermelho nos pés, shorts curto, blusa sem mangas, maquiagem borrada, cabelo com frizz, ponta dupla, sem chapinha, sem creme, nem nada. Toda bagaçada. A luz laranja morto do poste iluminava aquela garota, fazendo com que um cilindro transparente reluzisse em suas mãos. Um litro de vodka talvez. Era por volta das três horas da madrugada e ela estava lá. Em pé e parada embaixo daquele poste como se estivesse fundida ao asfalto sujo e nojento. Ficou me fitando por um tempo.
Tinha um corpo miúdo, despeitado e sem bunda também. Acho que ainda estava acordando para o mistério do mundo com todas as suas articulações vinculadas a uma hipocrisia incessante. Síndrome de adolescente. Totalmente comum. Revoltava-se com tudo e queria afogar-se no velho e bom “sex, drugs e rock and roll”. Tinha uns 15 anos, talvez.
Depois de ficar me fitando por um tempo, começou a andar e sentou-se ao meu lado. Queria conversar. Talvez, todo aquele turbilhão repentino de conhecimento fosse coisa demais para ela. Tão pequena diante de tudo o que vivemos. Cheirava mal. Senti o cheiro de álcool misturado com suor, cigarro e rancor. Estava toda fodida, deveras fodida pra ficar mais bonito. Desconfiei que estivesse fora de casa há um bom tempo. “Tomar um banho é bom”, pensei.
Como se me conhecesse há muito tempo, sentou-se ao meu lado como se fossemos bons amigos e começou a dialogar. Mas não éramos nada. Eu era um estranho que estava sentado refrescando a memória e fumando em uma praça vazia e gélida. Ela era uma pequena rebelde na fase larval do descobrimento da vida. Supus que esteve em alguma balada ou coisa assim. Por estar suada daquele jeito, provavelmente abrigou-se no meio de alguma multidão infestada de pessoas da mesma estirpe que a dela.

– Sabe, às vezes eu me canso de tudo o que eu vivo dentro de casa. Odeio ficar pedindo dinheiro para os meus pais, pedir permissão pra sair e voltar em tal horário em tal dia em tal lugar. Eles querem controlar minha vida, tudo o que eu faço, que penso, que gasto. Tudo! Quero completar dezoito anos e sair logo de casa, não agüento mais toda essa dependência financeira e pessoal. É um saco. Querem controlar quem eu vou namorar, se o cara é bacana, se é bom sujeito, se os pais são gente boa e também se ele tem grana. Inferno.
– Hm…
-Ficam perguntando se eu já fumei, se já trepei, se já cheirei. Só falta perguntarem qual é a calcinha que estou usando. Fazem um interrogatório da minha vida inteira. Quero privacidade e liberdade. Puta que pariu, é um saco não ter isso. Quero trabalhar logo, ter meu dinheiro, sair de casa e não precisar levar xingos por eu não ser a menininha delicada que eles tanto desejavam.
– Hm…
– Quero ter minha própria grana e fazer tudo o que eles não deixam. Afinal, o mundo é movido pelo dinheiro não é mesmo?
– Uhum…
– Mas eu sei que sou mimada e admito isso. Todos os presentes eram destinados a mim, por ser a filha única. E apesar de todas as coisas que eu faço, meus pais ainda insistem em dar as coisas que eu quero. Então, está tudo bom do jeito que está. Tenho tudo mesmo, então se foda.
– Hm…
– Não está afim de conversar comigo? É, eu sei que eu sou um encosto na vida das pessoas em minha volta.
– Hm…
– Você é mudo caralho? Que inferno, fala alguma coisa!

“Que garota imbecil e estúpida”, pensei.
– Se você preza tanto pela independência dos seus pais e não quer nunca mais vê-los por odiá-los do jeito que fala, então por favor, não fique nessa situação paradoxal que você se encontra, garota. Pois afinal, completar dezoito anos ou não, não fará de você uma mulherzinha melhor ou qualquer coisa do tipo.
– Não entendi porra nenhuma que você falou.
– Eu disse paradoxo. Ao invés de ficar reclamando tanto da vida que tem, saia de casa, oras. Ao invés de ficar camuflada nessa vida monótona que você tanto afirma ter por ser isso e aquilo, talvez o melhor que tenha a fazer seja sair da sua casa. Ser humano é um ser depende dos outros, seja em qualquer sentido. Você ainda não se fodeu o bastante pra entender que é totalmente dependente daqueles que dão tudo o que você quer. Exceto aquelas pessoas que os pais não ligam nem pra existência do próprio filho.
– Não tenho a menor intenção de sair tão cedo de casa.
– Então não fique toda submersa nesse estilo de vida que você supostamente tem. Se quisesse liberdade já estaria bem longe daqui, pelo menos não odiaria aqueles que dão tudo o que você quer.
– Uma coisa não tem nada a ver com a outra.
– Tudo bem, não tem. Você está certa e ponto final.
– Cale a boca e não me encha mais o saco, garoto estúpido.

Levantou-se e saiu andando. Passos rápidos e firmes, com certa raiva envolvida naqueles pés miúdos. Senti uma gota em minha testa. Começava a garoar. Na certa, aquela garota estava voltando para sua casa e talvez estivesse arrependida. Ainda estava saindo do casulo consumido pela imensidão desse mundo envolvido por tudo aquilo que estamos habituados a notar, mas que só pelo fato de notar, acabamos ignorando o que para nós já é algo evidente.
E em nossa volta, estamos repletos dos paradoxos.

O turbilhão de descobertas espantava a garota que se questionava sobre a situação em que vivia. Sim, a vida pessoal dela é um paradoxo. Tanto a minha quanto a sua vida, podem estar circundadas por situações paradoxais.

O que nos resta é perceber isso.
Que é algo que não fazemos.

Ou simplesmente não queremos.

 

 

 

Ciclo infinito

13 jan

“Levamos uma alma que não conhecemos e somos levados por ela. Quando o enigma se ergue sobre duas patas sem ter sido solucionado, é que chegou a nossa vez. Quando as imagens sonhadas beliscam o próprio braço sem acordar, somos nós. Porque somos o enigma que ninguém sabe resolver. Somos o conto encerrado em sua própria imagem. Somos os que andamos sem parar e nunca chegamos à claridade.”

“Precisa-se de bilhões de anos para criar um ser humano. E ele só precisa de alguns segundos para morrer”.

página 349/391, MAYA – JOSTEIN GAARDER

Vermelho manchando o branco

7 jan

O som estridente do celular quase estoura os seus tímpanos e ele leva um susto, levantando-se da cama e acendendo a luz. A janela está aberta. Lá fora os raios de sol começam a se fundir com o breu da noite, porém ainda com algumas estrelas no céu. Levanta-se e estica os músculos ainda adormecidos com a noite – naquele estado de descanso essencial para o ser humano -, sentindo uma vontade de deitar novamente.

Diante do espelho, percebe o rosto amassado. Com a visão ainda embaçada, tenta enxergar com qual expressão facial está. Ele tenta abrir um leve sorriso, mas desiste. Sente que é impossível. Uma xícara de café. O odor do café parece impregnar-se em seus lábios, em sua roupa. Aperta o botão “ligar” do computador e espera a máquina obedecer. Enquanto isso acende um cigarro e decide folhear uma revista deitado em sua cama. O ambiente está calmo. Não há sons que atrapalhe, nem vizinhos idiotas gritando ao lado.

Silêncio. Está sozinho. O zumbido da mosca na janela o irrita. O barulho do relógio também o incomoda. Sente vontade de saltar pela janela afora. Cair do quinto andar. Quem sabe não se livraria de todo aquele tédio?

Cansado de pensar em uma solução, decide acender mais um cigarro e andar sem rumo nas ruas da cidade. Andar sobre o areal que gostava de deitar-se à noite, quando não havia ninguém por perto. E ficar lá, contemplando a paisagem e amando alguém.

Já anoiteceu.

A fina areia branca suja suas roupas. O vento bate em seu rosto. A escuridão do mar se funde com o céu iluminado pela lua cheia ao horizonte distante. Gostava de ficar deitado ali junto com seu namorado. Sim, namorado. Quando não havia ninguém para espiá-los sentiam-se seguros para se amarem durante a noite. Ninguém os incomodava. Talvez a única coisa que incomodava era a areia branca que ficava grudada nas costas de ambos.

Senta-se no meio daquela imensidão e observa o movimento da cidade e das pessoas. Elas parecem ser movidas por algo invisível. Um movimento brusco o faz relembrar-se dos fatos. Ele vê pessoas se aproximando. O gosto de sangue vem em sua boca, sente calafrios e dores no corpo.

Estavam quase seminus. Pegando as próprias roupas ele exclama para o outro:

– Corra daqui agora!

– Não posso. Você tem que vir junto – retrucou o outro.

– Não interessa, anda logo!

Ao notar que o casal à frente notou sua presença, o grupo correu até o local onde eles estavam aos berros e proferindo palavras de baixo calão. Ninguém fugiu. Sofreram juntos. Gemidos de dor se fundiam com o barulho incessante das ondas do mar. Ali, no meio daquela areia branca e quase transparente. Sentiram-se humilhados; menosprezados.

Gosto de sangue. Indescritível.

Estavam em quatro pessoas. Homens. Ironicamente falando, talvez eles fossem homofóbicos. Não conseguia lembrar-se dos rostos, pois era noite. Noite fria; mórbida. A crueldade pairava sobre o ar. Satisfazendo o prazer sádico doentio, um dos homens exclamou:

– Isso é pra vocês virarem homens, veados filhos da puta!

Nem hospital. Nem polícia. Nem nada. Pensaram em desistir de tudo. Das idéias, dos objetivos, da aparência. Do viver. Contudo, não desistiram. Continuaram juntos.

Acorda assustado. Está molhado de suor. A máquina ligou a um bom tempo e parece esperá-lo em seu lugar. Revista no chão, roupa amassada, cigarro no cinzeiro. Em qual momento havia colocado o cigarro no cinzeiro? Não se lembra. Não sabia se estava sonhando ou se estava no presente. Foi tudo tão real.

As dores voltaram a incomodá-lo. O gosto de sangue impregnou-se em seus lábios, substituindo o amargo do café. A lembrança daquele dia ainda era forte dentro dele. O namorado havia saído para trabalhar há poucas horas e ele estava ali, deitado em sua cama escutando o zumbido da mosca.

Sentado em frente ao monitor que parece gostar de queimar seus olhos, uma notícia na internet lança uma lâmpada fluorescente contra seu rosto. Mesmo gosto de sangue. Mesma mediocridade. Mesma brutalidade.

Mesma realidade.