Arquivo | fevereiro, 2011

Esquizofrenia Indescritível

24 fev

É essa tua presença que me deixa louco
Tão louco que acabo me sentindo protegido e seguro
Perdendo o medo do mundo e das pessoas
Que parecem querer me machucar
Socando minha face fazendo-a chorar

Face escorrida e lambida pelo sangue
Vermelho vivo como teus lábios
Frágeis e brutos ao mesmo tempo
Que parecem querer entrelaçar minha alma à tua
Através de teus braços, teu toque

Toque delicado que me faz desprender do mundo
Fazendo-me esquecer da vasta imensidão do universo
Juntamente com seus sussurros
Que parecem querer me deixar surdo
Só pra ouvir tuas bonitas palavras

Palavras intensas que com você tomam outro significado
Que talvez apenas eu e você saibamos
Secreto e discreto ao mesmo tempo
Que parece querer nos deixar mais próximos
Para tornar as coisas mais profundas do que já são

Afogo-me em reflexões e percebo que não me encontro
Concluo que estou perdido nessa realidade
Confusa e estranha
Que parece querer me deixar desprotegido de tudo
Tornando-me frágil, fraco e medroso

Não estou me reconhecendo por estar aqui
Nem por estar sendo vítima de um sentimentalismo esquizofrênico
Acho que fui pego desprevenido por uma coisa indescritível
O indescritível descrito em uma palavra
Com quatro letras

Amor.

Você.

Na verdade deveria ser indescritíveis
Pois são duas coisas
Que estão no singular, mas
Que fica no plural
Então,
Indescritíveis.

Desculpe-me não sei contar.
Duas palavras.
Oito letras.

Acho que estou louco.

Última Cartada

18 fev

A vida é um jogo. Aqueles que se distraem por alguns segundos, xeque-mate.

Como num jogo de xadrez, há a necessidade de pensar. Quanto mais você pensa, mais nervoso você fica. Se você não pensa numa estratégia, você perde. A vida também é assim. Você pensa, pensa e pensa e no final acaba deixando tudo pra depois. O ser humano é movido pela engrenagem sentimental chamada interesse e a peça fundamental para a movimentação desse mecanismo são as conseqüências. Aquelas que estão distantes de nosso tempo e que nos fazem querer procrastinar a todo momento. Procrastinar nada mais é do que você foder com a sua própria vida. Jogar nas mãos de outras pessoas, jogar para o tempo, para o destino, para o horóscopo, para Deus. Viu só? A vida é um jogo. Um jogo de passe e repasse.

Como num jogo de poker, há a necessidade de blefar. Quanto mais você blefa, mais amedrontado o seu inimigo fica. Se você não sabe blefar, você perde. A vida também é assim. Cheia dos mistérios e do interesse de saber o que o outro está pensando. Sim, e esse interesse é aquele que nos faz querer procrastinar. Blefamos o tempo todo. Adiamos o tempo todo. E o ato de mentir e querer sair invicto de tudo prevalece constantemente na vida, no jogo.
No jogo da vida.

Cartas na mesa. Apostas feitas. Blefar até ganhar. Pensar até morrer. Jogar para viver.
Durante essa trajetória através dos anos corridos, somos surpreendidos por aquilo que às vezes nos faz parar de blefar por alguns instantes. O medo. Medo de perder, medo de mentir, de apostar, de continuar, de errar. Aqueles que estão em nossa volta nos dizem que se aprende com os erros. Na verdade, apenas aprendemos a não cometer erros tão babacas como antes. Erramos pela vida inteira.
Você finge que não erra. A vida finge que é fácil.
O medo, um desconhecido que chega repentinamente e nos consome por dentro, fazendo com que fiquemos calados para não falar, cegos para não olhar e medrosos para não sentir. A partir daí as coisas ganham novos ares.

A incerteza do futuro, a angústia do passado e a insatisfação do presente deixam as dúvidas pairarem sobre ar que respiramos. Dúvidas misturadas com monóxido de carbono dos automóveis que entopem as ruas, as estradas, as cidades, as nossas vidas. Comemos poluição com incertezas. O gosto ruim do talvez nos faz cair em reflexões. Reflexões que criam as imagens sobre desejos. Quero fazer isso, comprar aquilo, amar aquela, usufruir disso. Apenas desejos reprimidos que nos deixam assim, estáticos e patéticos.

E quando se supõe que as coisas estão chegando ao fim de um desmoronamento, elas estão apenas começando. A única certeza que temos é que a senhorita chamada morte chegará algum dia. Esteja ela com uma foice ou com um lenço branco sobre a cabeça, pegará aquilo que nos é de maior valor e carregará embaixo dos braços como se fossem meros brinquedos. O jogo chamado vida que brinca com os bonecos de carne e osso em um frenesi constante. Sem um save ou load game.

Por fim, é melhor não se distrair por poucos segundos.

O game over pode chegar a qualquer momento.

Abdicação do impossível

10 fev

Olhar para aquela caixa guardada cheia de objetos, bilhetes e cartas no meu armário é o mesmo que olhar para as fotos reveladas pregadas na parede azul de meu quarto. Sinto a nostalgia chegar, um buraco no peito começa a crescer. Relembrar o passado não é uma coisa fácil, principalmente quando ele está cheio de marcas. Não falo de marcas doloridas em carne viva ou em cicatrizes quase fechadas. Falo sobre marcas de felicidade, simplicidade. De amizade. De vocês.

Tento refugiar-me de toda essa angústia pensando no futuro. Em um futuro não tão distante. Vejo situações diferentes. Pessoas diferentes. Comportamentos diferentes. Estamos mudados? Quase certeza. O passado e o futuro estão tão entrelaçados como uma bola de neve que não consigo definir qual dos dois entristece-me mais. Talvez ambos.

Minha única válvula de escape é o presente.

Presente.

O presente que se tornará o pretérito perfeito em minha vida. Momentos que serão vividos com perfeição ao lado de vocês estão chegando. Apesar disso, há aquela melancolia que me espera de braços abertos com um largo sorriso no rosto. Sinto medo. Sinto-me pequeno diante desse sentimento de tamanho descomunal. Aproximo-me dela. Ela me abraça com força e disfarçada frieza. Sinto gotículas de água se acumular em meus olhos, querendo transbordar. Não quero deixá-las saírem de mim. Elas me pertencem. São de minha propriedade. Sinto-me egoísta. Não quero chorar.

Acabo voltando para aquele ciclo vicioso. Não consigo desviar-me do futuro. O futuro do presente. O futuro do pretérito. Tudo tão distante e tão próximo ao mesmo tempo. Os momentos vividos e os que ainda estão por vir parecem querer confundir minha cabeça. Torná-la frágil diante de tudo o que quero sentir. Tenho o desejo de parar o tempo. Quero congelá-lo. Quero viver esses breves momentos para toda a eternidade.

Eternidade.

Tenho medo dessa palavra. Ela é perigosa. Tão simples e de efeito colossal que é capaz de me deixar coberto por reflexões, fazendo com que eu queira abrigar-me próximo a vocês.

Olhar para vocês e sentir a alegria no ar, faz-me forçar os lábios a contraírem-se em meia lua. Quero ser egoísta o suficiente para guardá-los em um mundo só meu. Quero sentir o vento tocar meu corpo e fazer-me esquecer da vastidão deste mundo. Quero lembrar-me apenas de vocês. Sentir que minha existência está completamente entrelaçada na fita métrica finita chamada vida e que nesta se encontra os rabiscos de tuas presenças. Quero ver o longínquo horizonte diante de nós. O horizonte onde todos os dias o sol insiste em nascer e morrer. Quero ver o azul intenso e abatido do mar. A força e o reflexo das ondas que parecem querer fugir daquela imensidão de lágrimas.

Lágrimas.

Afogar-me-ei nelas.

Incomodo-me com essas lágrimas que estão a molhar o papel em que escrevo, deixando-o levemente enrugado. Por que escrevo? Porque não sei demonstrar sentimentos em gestos. Talvez seja melhor em palavras escritas. Quando não se sabe demonstrar o amor que se sente para aqueles que realmente se ama, melhor ficar quieto e apenas escrever.

Escrever.

Palavras que talvez sejam de mera insignificância, mas que talvez com um toque de seja lá o que for tornam-se bonitas. Sim, bonitas. Ainda estou a derramar-me em prantos. Ainda estou a pensar no passado e no futuro. Não consigo desprender-me de ambos. Nem do presente. Nem de vocês.

Sou fraco e frágil, diante de tudo isso que vivo e viverei. E digo-lhes que talvez tudo isso não passe de puro egoísmo.

Sim, talvez. E é esse talvez que circunda os primórdios da existência humana, deixando-a repleta das dúvidas. Dúvidas que acabam fundindo-se à rotina de minhas retinas, afundando-me em reflexões. O sentimentalismo talvez frágil que me consome pode ser demasiadamente fraco diante de tudo isso que escrevo. O sentir que acaba tornando-se mais intenso que o viver, deixando minhas confusões virem à tona diariamente. Fico tão confuso que apenas escrevendo, tento utilizar-me das palavras como simples brinquedos em minhas mãos para tentar demonstrar em escritas aquilo que se chama ‘amizade’. Palavra que se funde com a presença de vocês, que me deixa mais vivo e me faz perceber que aquilo que eu sempre duvidei, realmente existe. E o que eu sempre duvidei foi a existência daquilo que o Homem denomina como ‘amor’. Esteja ele “com açúcar, ou com afeto”, quando se descobre o verdadeiro significado de ‘amor e amizade’, talvez qualquer ser humano passe a dar valor ao que se chama de existência.

Quanto ao “Eu amo vocês”, poderia ser dito sem nenhum vestígio dos “talvez” que circundam minha vida cotidiana. Mas como me considero um covarde por não ter coragem em pronunciar tais palavras diretamente a vocês, fica por escrito.

Sem mais.

 

 

 

Vontade Incontrolável

4 fev

Era verão. Como a maioria das histórias que se passam nessa estação. Por que sempre verão ao invés de primavera ou outono? Inverno também é outra estação muito clichê. Mas convenhamos que essas duas estações são predominantes nos países tropicais. Essa historinha de quatro estações e o caralho a quatro é coisa da Europa, lugar de clima temperado. Nossa cultura é tão influenciada por europeus que dou razão pra toda essa babaquice de época das flores, lugares bem bucólicos ou sei lá mais o que.

Lá fora, o céu azul quase sem nuvens esbanjava sua graciosidade de um dia belo e quente. Não era um calor infernal, e sim aquele dia ensolarado com brisas leves, do tipo que o vento se entrelaça nos fios de seu cabelo fazendo-o esvoaçar-se loucamente. E dentro daquele supermercado estava abafado. Dia de promoção era assim. Um pé no saco de tão cheio que o estabelecimento ficava. Sem contar aquelas inúmeras caixas de venda vazias, quando se tinha apenas 4 ou 5 em funcionamento, fazendo com que as filas se prolongassem cada vez mais. No caixa rápido estava lá, uma garota com sua cesta de compras não mão. Coca-cola, pão de queijo, requeijão, nuggets, iogurte e bolachas. Nada que preste. Olhando todas embalagens, sentia sua barriga crescer e a sensação de arrependimento vinha em sua cabeça. Porém, a gula era maior. “Maldito capitalismo que só me engorda e me fode”, pensou. Observava o movimento frenético das pessoas. Pareciam ser movidas por algum motor dentro delas, fazendo com que interagissem com o ambiente de uma forma sinuosa e estranha. Aquelas crianças robóticas que berravam nos corredores irritavam os tímpanos da garota. A vontade implantada pela mídia fazia efeito sobre elas, ensurdecendo os pais com seus clamores pelo consumo. Dia mais estressante aquele!

Sentir-se envolvida por toda aquelas situações cotidianas, era bem estranho para aquela moça. Ainda mais quando se pára de repente na fila do caixa e começa-se a observar tudo em sua volta. Um sapatinho brega aqui, bunda murcha ali, batom feio acolá. Um cabelo negro e enrolado seguido por uma barba por fazer, fundido a um corpo vestido por roupas aparentemente velhas e fora de moda. “Jesus Christ, I want this monster in my bed!”, pensou. O frio na espinha fundiu-se com os olhos atentos e o olfato apurado. Quando a presa se aproximasse, sugaria toda a substância maldita que aquele bicho raquítico e branquelo exalava. Sentiu vontade de pronunciar algo quando aquele cheiro impregnou-se em suas narinas, porém a cada passo que o garoto dava, suas palavras eram desmanchadas em mil pedaços dentro da garganta, fazendo-a desistir de pronunciá-las. Ele não utilizava perfume, nem creme corporal e muito menos sabonete com cheiro de lavanda do campo e toda aquela parafernália. Era cheiro natural, forte e másculo ao mesmo tempo.

Ela sempre gostou daqueles caras mais escrotos e babacas que existem na face da terra. Sentia-se fortemente atraída por magrelinhos quase desnutridos. A moda de hoje é depilar, mas se o cara tivesse pêlo, pra ela estaria no ponto. Mongóis eram seus preferidos. O tesão subia à flor de sua pele. Os olhos semicerrados escorregavam sobre aqueles corpos. Gostava de sentir-se dominada por um idiota bancando o leão domador. Leão metido a um espartano bruto, que queria arrancar-lhe o prazer fazendo-a gemer. Relacionava a força do exército espartano com a força que gostava de sentir. Masoquista? Talvez. Todo mundo com certeza possui um lado oculto de masoquismo. Corpos fundidos no chão, na cama, no sofá, no carro, no capô, na mesa, na cozinha, na puta que pariu. Não importava. Um peso sobre o corpo dela era o que mais lhe fazia delirar. Ah, como fazia.

“Putinha depravada” talvez você pensou ou está pensando. Se não pensou, meus parabéns. Geralmente quando alguém que não quer admitir que pensa muito em sexo, acaba irritando-se facilmente quando se depara com pessoas fissuradas conversando sobre o mesmo. Pai Freud dizia isso. Não é necessário ser um nerd ou psicólogo pra saber disso. Tá na cara de todo mundo. Sexo imaginário ou carnal, é sexo. Admita e não tente se redimir. “Amor é prosa, sexo é poesia.”

O ser humano é movido por desejos. Com aquela garota não foi diferente. Sentiu-se atraída pelo macho e decidiu sair da fila infinita para tentar algum diálogo. Seguiu-o. Na seção de porcarias que ela já havia passado foi o local em que ele parou. Estava cerca de uns 10 passos de distância dele. O menino parecia não notar a presença dela, mas a aura emitida daquela garota não enganava. Queria ouvir a voz daquele garoto, que talvez combinada com aquele estereótipo que ela mais gostava, fosse o suficiente para lhe causar um pequeno tesão. Ele parecia bem confuso para escolher uma embalagem com aquele monte de gordura e conservantes. Ela aproximou-se e fingiu escolher algum produto também.

“Cada coisa cara não é mesmo?”, ela perguntou. Foi uma pronunciação espontânea. As palavras em pó acabaram saindo de sua garganta de súbito e fundiram-se aos tímpanos daquele garoto. “Sim, realmente tudo é muito caro meu bem”, respondeu ele gesticulando. Um outro rapaz mais encorpado que o primeiro se aproximou e olhou para ela abrindo um sorriso simpático. Ela respondeu acenando com a cabeça e esboçando um sorriso também. Sentiu-se uma invasora naquele latifúndio de sete cores. Gostava de pessoas como aqueles dois, pois simpatizava-se com eles. No caso da liberdade de expressão fundamental em qualquer democracia, ela colocava-se do lado dos atenienses em antítese dos espartanos. Porém, era uma democracia exercida por poucos e que talvez prevaleça até os dias de hoje. Não era a primeira vez que ela se deparava com situações parcialmente constrangedoras desse jeito.

“Fuck, que vergonha”, ela pensou. E saiu disfarçadamente sem que aqueles dois percebessem. Mercadinho mais lazarento aquele! Sentiu vontade de gritar no meio de toda aquela multidão, proferir palavrões e derrubar as mercadorias pela vergonha que ela havia passado. Na verdade ela não presenciou nenhuma vergonha, porque os rapazes não perceberam as intenções escondidas com as atitudes dela. Era ela própria quem se culpava. O tesão e a vontade de transar haviam ido embora momentaneamente. Talvez seja por isso que ela tenha ficado tão irritada.

Mas apenas momentaneamente.

Ela é um ser humano também.

 

 

 

O nada surge do nada [?]

2 fev

“De onde vem o mundo?

Não… isto ela realmente não sabia. É claro que Sofia sabia que o mundo era apenas um pequeno planeta no meio de um universo enorme. Mas, então, de onde vinha o universo?

Naturalmente se poderia pensar que o universo era uma coisa que sempre existiu. Nesse caso, ela não precisaria encontrar uma resposta para a questão de saber de onde ele vinha. Mas será que alguma coisa podia ser eterna? Alguma coisa dentro dela protestava contra isto. Tudo o que existe tem que ter um começo. Portanto, em algum momento o universo também tinha de ter surgido a partir de uma outra coisa.

Mas se o universo de repente tivesse surgido de alguma outra coisa, então essa outra coisa também devia ter surgido de alguma outra coisa algum dia. Sofia entendeu que só tinha transferido o problema de lugar. Afinal de contas, algum dia alguma coisa tinha de ter surgido do nada. Mas será que isto era possível? Esta idéia não era tão absurda quanto a noção de que o mundo sempre existiu?

Nas aulas de religião ensinavam a ela que Deus tinha criado o mundo, e agora Sofia tentava se consolar com o fato de que, apesar de tudo, esta talvez fosse a melhor solução para o problema. Mas logo começou a pensar novamente. Ela até poderia se contentar com o fato de Deus ter criado o mundo. Mas e o próprio Deus? Teria ele próprio se criado a partir do nada absoluto? De novo, alguma coisa protestava dentro dela contra essa idéia. Embora não restasse dúvida de que Deus fosse capaz de criar todas as coisas possíveis, dificilmente ele poderia ter criado a si mesmo, sem antes possuir um “si mesmo” através do qual pudesse criar. E então só restava uma possibilidade: Deus sempre existiu. Mas esta possibilidade ele já tinha rejeitado. Tudo o que existia tinha que ter tido um começo.”

página 19, O MUNDO DE SOFIA – Jostein Gaarder