E quando você vem

15 jul

     E novamente tu vens e interrompes a minha história repentinamente. Como se eu estivesse diante de um penhasco sabe? Sinto aquela sensação vazia e estranha dentro do peito, que me consome e ao mesmo tempo deseja esvaecer-se de qualquer maneira do meu corpo. Meus olhos ardem como brasa, como se eu estivesse acordado a muito tempo. Não, eu não me reconheço por estar sentindo isso, mas também não me sinto chateado por tal. Gosto quando vens e me envolves com seu olhar, com seus braços, com seus lábios, com seu corpo. Com a sua presença. Não tô querendo fugir e nem nada. É só esse sentimento composto por uma substância desconhecida que reage dentro do meu peito e que precisa apenas de um catalisador para finalizar sua composição e se concretizar.
     Um dia, tudo fora de modo diferente do que é hoje. Ou então, pra ficar com cara de história de criança, – porque a maioria das histórias infantis são bonitas e sobre o que eu estou falando também o é – “era uma vez” se encaixaria perfeitamente, deixando tudo mais belo. Era. Era. Digo e repito quantas vezes for preciso, e-r-a. Eu era. Tu eras. Éramos. As pessoas mudam. Os sentimentos também. As coisas que ficaram presas ao passado já não passam de mero simulacro da realidade. Então, já era. Palavra tantas vezes repetida assim fica ecoando em meus pensamentos e chega a me distrair. Eco desviou a atenção de Hera. E novamente, era.
     Tento brincar com as palavras como se estivesse manipulando fantoches. Manipular é uma palavra formidável. Tem toda uma sensualidade invisível quando proferida em voz alta. Demonstra poder, possessão, propriedade, patrimônio. Sinto-me bem quando tenho a possibilidade de tomar posse de algo e poder manuseá-lo de acordo com minhas vontades, mas nem sempre ter o domínio sobre as coisas significa “estar na boa”. Não tô dizendo que estou na bad. Tô bem. Tô muito bem. Bem mesmo. Tô amando, poxa. É só o medo de falhar nalgum momento. Está se perguntando o porquê da existência desse meu medo né? Nem eu sei. É confuso. É estranho. É invasor. É o possuído e possuidor. É o.
     Enquanto te espero aqui, parado e de corpo esticado neste local onde tantas vezes me dominaste, acabo definhando aos poucos como um vegetal sem água, nem sol e nem luz. Aguardo suas mãos ansiosas deslizando pelo meu corpo. Mãos quentes e sensíveis que queimam a minha pele com um simples toque. Gosto quando vens e permaneces um bom tempo a me contemplar com seus olhos atentos e provocantes. Invadas-me com seu olhar, derramas sobre mim suas infinitas histórias, diga coisas agridoces, faças com que eu compreenda que tudo pode ser assim. Assim mesmo. Uma coisa bonita que pode desaparecer a qualquer instante, mas se cultivada a todo o momento não deixará de existir e nem se tornará algo feio em milésimos de segundos. Tenho medo de que tudo possa mudar em um simples piscar de olhos.
     A distância está grande, eu sei. Prometi a mim mesmo que não me machucaria novamente com isso, mas olha meu bem, tá muito difícil. Muito mesmo. Não quero ter você próximo a mim assim, tão mentirosamente na consciência, na imaginação, em sonhos, em mensagens, na puta que pariu e nem nada. Quero-te em carne e osso. Tô falando de contato físico, carnal, quente, química sexual, pecado original. Quero derreter nossos corpos sobre o lençol branco. Derretê-los até que tudo se esvaeça de nós, deixando escorrer o conteúdo pecaminoso pelo chão. Quero fazer com que abra seus lábios e liberte novas palavras bonitas. Gosto de observá-lo enquanto fala, pois assim me concentro completamente em tudo o que me contas e fico submisso a ti.
     Me contas, me invades, me levas, me pedes. Te ouço, te sinto, te sigo, te obedeço. Ficando assim, calado diante de ti, quero que lentamente me deixe engolir todas as palavras que viraram pó em meus lábios. Se falar fosse fácil, não deixaria tantas delas vagarem contra o fluxo constante da minha vontade. Penso no que fazes, no que pensas e no que sentes enquanto estamos assim, distantes como céu e terra. Choro por debaixo das mantas para que ninguém veja o quão covarde me sinto diante da saudade. Esta, que me visita constantemente enquanto não o tenho próximo a mim. Com urgência, quero espreitar-te em meus braços calorosos. Sentir aquilo que eu nunca senti.
     Ou pelo menos deixara de sentir por um bom tempo por vontade própria. Amar-te-ei com lenta delicadeza para apreciar o gosto indescritível dessa substância que precisa apenas de um catalisador para terminar sua composição. Convidar-te-ei para dançar uma valsa ao longo da noite em que nos vermos novamente. Dançaremos sobre os destroços da saudade jogados pelo chão e o conteúdo pecaminoso infectará nossos corpos. E novamente tu vens e interrompes a minha história repentinamente. Venha e me envolvas com seu olhar, com seus braços, com seus lábios, com seu corpo. Com a sua presença.

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3 Respostas to “E quando você vem”

  1. r001 20/07/2011 às 21:11 #

    Muito intenso haha =O

  2. mari_tokumoto 21/07/2011 às 21:26 #

    já estava com saudade de ler seus textos

    heauihiaeuhiuaehuiaehuiaehuiaehuiaehuihae

    falo isso pessoalmente, mas já que voce gosta de receber comentarios

    seus textos sao fodas ❤

    realmente admiro sua capacidade de escrever
    😀

    hohohoh

  3. Nicollas 11/08/2011 às 0:09 #

    Palavras sinceras e intensas.
    Belo texto 🙂

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