Arquivo | agosto, 2011

Que se tudo fosse assim, assim mesmo – penúltima parte

30 ago

As luzes de um amarelo morto pareciam esforçar-se para iluminar o pequeno recinto abafado. As nuvens de fumaça giravam em torno das luzes. O cheiro do álcool pairava no ar. Tudo se misturava com o calor humano que entupia aquele formigueiro. Em frente ao balcão, pequenas doses de vodca barata eram levadas aos lábios vermelhos e macios daquela moça de beleza esplêndida. Chamava atenção daqueles que passavam por perto. Estes podiam sentir o cheiro adocicado de seus longos cabelos, de sua pele frágil.
Ainda estava sóbria, mas aos poucos podia sentir o álcool surtir efeito em seu corpo. Um rapaz se aproximou. Posso me sentar ao seu lado, perguntou um moço, dono de um belo sorriso – dentes que se alinhavam perfeitamente nas linhas horizontais de seus lábios e que reluziam ao entrar em contato com as luzes do bar. Se não vier me flertar com papo mole, claro que pode, respondeu. Vestia calças largas, meio amassadas e um pouco velhas. Seus ombros largos, mas desajeitados eram cobertos por uma camiseta de tecido barato. Dessas que são compradas em qualquer brechó vagabundo por aí. Também estava sóbrio. Também tentava se livrar daquilo que o corroia paulatinamente a cada dia que se passava.
Não vou te flertar, tô tentando me livrar de uma coisa que está me consumindo faz alguns dias tá me entendendo, perguntou para ela. Sentia-se tão insegura naquela situação – com um medo colossal de infectar-se novamente – que desejou pegar sua bolsa sobre o balcão e sair correndo bar afora, olhar para o céu e ver que tudo ainda tinha uma solução e que algum dia a encontraria mesmo que esta estivesse enterrada a sete palmos abaixo da terra e também não voltaria mais atrás porque tudo seria daquele jeito e então, acharia outro lugar pra ficar e voltar a beber pra fugir de toda aquela realidade que estava diante dela. Beber era como uma válvula de escape do presente. Sentia-se bem, era seu conforto. Ou voltaria correndo pra casa. Ficaria sentada no sofá verde musgo contemplando o passado como uma idiota. Ficaria conformada com a vida que se passava dentro e fora da sua casa. Tudo ficaria ótimo, tranquilo, marvelous and gorgeous. Mas decidiu que não. Iria enfrentar tudo aquilo, toda aquela situação. Que não seria tão fácil assim, só porque estava sozinha, meio indefesa. Acho bom mesmo, respondeu.
A verdade é que sob aquele ambiente fechado, ambos sentiam-se amedrontados diante de tudo aquilo. Conversaram sobre o que faziam da vida, sobre suas famílias, sobre o tempo, sobre a cidade, que a monotonia do dia-a-dia era uma chatice, que ele sabia algumas filosofias chinesas, que ela se encantou, mas não falou nada, que ela adorava ler sobre filosofia, mas que era um pouco leiga no assunto, que ele se encantou, mas também não falou nada, só sei que nada sei, que ambos riram, que discutiram desde os pré-socráticos até os contemporâneos, que trocaram opiniões sobre o que pensavam sobre isso e aquilo – do racionalismo, empirismo, existencialismo e tantas outras correntes filosóficas. Que ambos contraíram o vírus letal, mas não sabiam, ou não percebiam, ou não queriam perceber. Que já não estavam completamente sóbrios.

***

As ruas se esvaziavam aos poucos. As luzes de neon continuavam a brilhar nas ruas. O chiar de freios e buzinas ao longe. Gritos que ecoavam entre os imensos prédios. A cidade estava dormindo. Em poucas horas, todo o movimento frenético das avenidas voltaria à normalidade. E lá, dentro daquele bar, ainda estavam aqueles dois.
Tá ficando tarde, tá afim de ir pra minha casa, ela perguntou. Ele achou estranho o convide de uma dama – que estava na mesma situação que ele, que tentava fugir dos mesmos problemas – ou pra ser mais preciso, do mesmo problema – mas acabou aceitando meio receoso, meio indefeso.
Sei lá. Pode ser, respondeu.

Que se tudo fosse assim, assim mesmo – antepenúltima parte

15 ago

Tinha decidido que seria daquele jeito. Acordou ao som do despertador que marcava onze e quarenta e sete. Olhou em sua volta. Os reflexos solares já invadiam seu quarto. Será assim e ponto final – pensou consigo mesma olhando-se nos olhos em frente ao espelho do banheiro. Os olhos ainda estavam sonolentos, pesados, mortos. A água, gelada. Parecia que estava levando seu rosto contra um monte de neve. Ao erguer o rosto, achou que a mulher do outro lado do espelho estava mais reluzente, mais bonita se comparada aos dias anteriores. As garrafas de vinho ainda estavam sobre a mesa da sala.
Naqueles dias, ela vagava pela casa e pelas ruas sem rumo, sem destino, sem fim, sem ninguém. Naqueles dias, ela só sentia o gosto forte do café, queimava por dentro com o gosto do vinho e se desintegrava com o gosto salgado das lágrimas. Naqueles dias, o gosto ácido do pós-vomito lhe corroia a garganta por grande parte do tempo. Tentava vomitar sua alma, expelir seu amor. É isso. Naqueles dias, vomitava o amor. Tentava livrar-se daquele que já causava efeitos colaterais em seu corpo putrefato. Naqueles dias, sentia asco de si mesma. Agora, de súbita vontade, decidira que mudaria aos poucos.
O pacote de cigarro barato estava sobre a mesa da sala, jogado no meio das taças, das garrafas e dos cacos de vidro. Quem sabe não encontraria vestígios de seu coração ali no meio de tantos destroços. Ultimamente sentia-se tão vazia por dentro que teve medo de encontrar alguma parte de si mesma no meio daquela imundície. Ao olhar para o sofá verde musgo que parecia estar apodrecendo a cada dia que se passava, lembrou-se de quando ficava sentada com aquele homem sobre seu colo conversando por vários minutos dos dias que se passavam lentamente sem sequer notar a frenesi constante que invadia a sua vida repentinamente. Gostava de acariciar sua cabeça, sentir os fios grossos e curtos do cabelo daquele que aparentava ser um muleque qualquer, mas na verdade era apenas alguns anos mais velhos que ela. Gostava de experiência camuflada em jovialidade. Gostava de puxar com força o cabelo daquele que pesava como chumbo quando estava sobre seu corpo. Gostava do roçar de pele molhada, das unhas cravadas nas largas costas de seu parceiro, do sussurrar de palavras, baba, gemidos, hematomas. Gostava de acordar no dia seguinte e ter a marca do dia anterior no corpo. Pelo menos era um meio de recordar de tudo aquilo que acontecera. No pescoço, na barriga, na virilha. Era dessas. Um pouco de dor não faz mal a ninguém.
Queria sentir-se renovada em tudo. Arrumou o cômodo aos poucos. Pegou um cigarro. Tô querendo parar de sentir isso, porque quando eu o sinto acabo falhando comigo mesma – pensava. Antes de uma primeira tragada, um primeiro suspiro de lamentação. Não haviam palavras para serem proferidas. Só queria fechar os olhos e falecer por poucos instantes. Só queria esquecer-se de tudo aquilo que acabara em alguns dias atrás. Só. Esquecer e deixar de sentir uma coisa que te corrói paulatinamente é pedir muito?
Enquanto o cigarro sucumbia entre os seus dedos, ela encarava seus pés miúdos. A pele branca quase pálida reluzia com os raios solares que invadiam a sala. As unhas estavam pintadas com um vermelho escarlate. Aquele vermelho que é provocativo aos olhos do observador. Que dá cobiça, e uma vontade de morder os lábios. Sua pele era lisa, bem cuidada. Se comparada com as outras mulheres de sua idade, diria que ainda não fora engolida pelo tempo.
Depois de tanto refletir, o cigarro amorteceu sobre o cinzeiro. Após arrumar os vestígios, ficou tanto tempo contemplando o passado se esvaecer da sala que não percebeu o sol se pôr. Decidiu que naquele dia, andaria pelas ruas sem destino definido. Qualquer barzinho ou restaurante seria de bom grado. Seria o suficiente para esquecer-se parcialmente daquilo que durou quanto tempo mesmo? Míseros onze meses.
Era sexta-feira. Dia sagrado para quem deseja sair para a farra e esquecer-se da vida difícil do trabalho cotidiano. Dia em que a noite fica agitada. Em que a cidade ferve como um formigueiro. As luzes de neon que brilham nas ruas. O chiar de freios. As buzinas. O cheiro de monóxido de carbono entupindo as avenidas e poluindo as narinas de quem respiram. O som alto. Gritos. A gripe do amor está em toda a parte. O vírus também. Quando você menos esperar, estará infectado por.
Gostava de vestido justo, que realçava a sua beleza e deixava em destaque a sua beleza quase morta. Negros, que colavam em sua pele e dançavam com as suas curvas corporais. Batom vermelho em lábios carnudos. Gostava de salto alto. Put your heels and change your night. Cabelos negros e escorridos. Vermelho, Preto e Branco. Acendeu mais um cigarro e abriu a porta de sua casa. Seguiu andando, deixando o sofá apodrecendo na sala e o passado em pequenos fragmentos no saco de lixo.