Que se tudo fosse assim, assim mesmo – penúltima parte

30 ago

As luzes de um amarelo morto pareciam esforçar-se para iluminar o pequeno recinto abafado. As nuvens de fumaça giravam em torno das luzes. O cheiro do álcool pairava no ar. Tudo se misturava com o calor humano que entupia aquele formigueiro. Em frente ao balcão, pequenas doses de vodca barata eram levadas aos lábios vermelhos e macios daquela moça de beleza esplêndida. Chamava atenção daqueles que passavam por perto. Estes podiam sentir o cheiro adocicado de seus longos cabelos, de sua pele frágil.
Ainda estava sóbria, mas aos poucos podia sentir o álcool surtir efeito em seu corpo. Um rapaz se aproximou. Posso me sentar ao seu lado, perguntou um moço, dono de um belo sorriso – dentes que se alinhavam perfeitamente nas linhas horizontais de seus lábios e que reluziam ao entrar em contato com as luzes do bar. Se não vier me flertar com papo mole, claro que pode, respondeu. Vestia calças largas, meio amassadas e um pouco velhas. Seus ombros largos, mas desajeitados eram cobertos por uma camiseta de tecido barato. Dessas que são compradas em qualquer brechó vagabundo por aí. Também estava sóbrio. Também tentava se livrar daquilo que o corroia paulatinamente a cada dia que se passava.
Não vou te flertar, tô tentando me livrar de uma coisa que está me consumindo faz alguns dias tá me entendendo, perguntou para ela. Sentia-se tão insegura naquela situação – com um medo colossal de infectar-se novamente – que desejou pegar sua bolsa sobre o balcão e sair correndo bar afora, olhar para o céu e ver que tudo ainda tinha uma solução e que algum dia a encontraria mesmo que esta estivesse enterrada a sete palmos abaixo da terra e também não voltaria mais atrás porque tudo seria daquele jeito e então, acharia outro lugar pra ficar e voltar a beber pra fugir de toda aquela realidade que estava diante dela. Beber era como uma válvula de escape do presente. Sentia-se bem, era seu conforto. Ou voltaria correndo pra casa. Ficaria sentada no sofá verde musgo contemplando o passado como uma idiota. Ficaria conformada com a vida que se passava dentro e fora da sua casa. Tudo ficaria ótimo, tranquilo, marvelous and gorgeous. Mas decidiu que não. Iria enfrentar tudo aquilo, toda aquela situação. Que não seria tão fácil assim, só porque estava sozinha, meio indefesa. Acho bom mesmo, respondeu.
A verdade é que sob aquele ambiente fechado, ambos sentiam-se amedrontados diante de tudo aquilo. Conversaram sobre o que faziam da vida, sobre suas famílias, sobre o tempo, sobre a cidade, que a monotonia do dia-a-dia era uma chatice, que ele sabia algumas filosofias chinesas, que ela se encantou, mas não falou nada, que ela adorava ler sobre filosofia, mas que era um pouco leiga no assunto, que ele se encantou, mas também não falou nada, só sei que nada sei, que ambos riram, que discutiram desde os pré-socráticos até os contemporâneos, que trocaram opiniões sobre o que pensavam sobre isso e aquilo – do racionalismo, empirismo, existencialismo e tantas outras correntes filosóficas. Que ambos contraíram o vírus letal, mas não sabiam, ou não percebiam, ou não queriam perceber. Que já não estavam completamente sóbrios.

***

As ruas se esvaziavam aos poucos. As luzes de neon continuavam a brilhar nas ruas. O chiar de freios e buzinas ao longe. Gritos que ecoavam entre os imensos prédios. A cidade estava dormindo. Em poucas horas, todo o movimento frenético das avenidas voltaria à normalidade. E lá, dentro daquele bar, ainda estavam aqueles dois.
Tá ficando tarde, tá afim de ir pra minha casa, ela perguntou. Ele achou estranho o convide de uma dama – que estava na mesma situação que ele, que tentava fugir dos mesmos problemas – ou pra ser mais preciso, do mesmo problema – mas acabou aceitando meio receoso, meio indefeso.
Sei lá. Pode ser, respondeu.

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