Arquivo | setembro, 2011

Que se tudo fosse assim, assim mesmo – última parte

21 set

E mais uma vez – como tantas outras vezes que o fez sem perceber – ficou parada na calçada. Sentiu a sensação de ter acordado de um sonho. Ou então, a sensação de passar de um sonho para outro repentinamente. Tá se sentindo bem, perguntou ele. Tô, só foi uma vertigem estranha, estamos quase chegando. Saíram ambos do bar. Os primeiros reflexos solares começavam a se fundir com as neblinas que pairavam entre aqueles amontoados de edifícios que se estendiam infinitamente pelas grandes avenidas. O cheiro de mijo, esgoto, cigarro e gasolina inundavam aquela cidade. Era a podridão típica das urbanidades. Enquanto caminhavam por aquelas ruas, continuavam a conversar sobre o tédio que invadia as suas vidas rotineiras. Ele, sentindo a presença da jovem moça ao seu lado, tinha medo de fazê-la enjoar de todas as suas histórias que pareciam banais. Queria mesmo é tocar naquelas belas mãos, que pareciam ser macias como plumas e levá-las até seu rosto. Ela, também sentindo a presença daquele belo rapaz ao seu lado, tinha receio em dizer algo que o deixasse encabulado, pois afinal, estavam ambos na mesma situação e queriam livrar-se daquilo de qualquer maneira.
Não viram o tempo passar enquanto caminhavam e chegaram rapidamente a casa dela. Morava sozinha. Casa pequena. Simples e de muros baixos. Não ligue para a bagunça desse muquifo, ela falou enquanto abria a porta. Ele entrou. Um pouco tímido, um pouco cabisbaixo e com as mãos dentro dos bolsos – que agora escondiam aquelas unhas roídas e com alguns pequenos cortes em seus dedos. Olhou em sua volta e viu os raios de sol invadirem as janelas daquela sala que cheirava à cigarro e ao perfume adocicado daqueles belos e longos cabelos. O sofá verde musgo ainda estava lá, apodrecendo no meio da sala a cada dia que se passava. Não precisa ficar assim todo encolhido, pode se sentar aí, disse a moça. Enquanto ela pegava uma garrafa de vinho para servir ao visitante, ele estava na sala admirando a coleção de livros e cd’s da garota. Como diria a minha velha mãe, é uma casa simples, mas um bom lugar pra se viver – disse ela deixando a garrafa sobre a mesa para que o rapaz se servisse. Tem fogo, perguntou ele. Sim, tá aí do seu lado no meio dessa bagunça na mesa do telefone. Obrigado.
Foi então que ele começou a contar porque estava naquela cidade, o porque da mudança brusca em sua vida, que morava sozinho e longe dos pais, que demorava pra se habituar com as coisas novas, que se decepcionava facilmente com as pessoas sem perceber e por isso estava querendo deixar de lado toda aquela história de amor verdadeiro porque todo mundo sempre acaba indo embora de sua vida e no final a única coisa que resta são aqueles pequenos destroços daquilo que te corroeu lentamente. E ela foi ouvindo sem pestanejar e também não acreditava mais naquelas histórias e disse que não queria apaixonar-se novamente.
Posso tomar uma ducha, perguntou ele. Claro que pode. Enquanto os minutos se passavam, a água que escorria pelo corpo daquele homem parecia limpar todo aquele sentimento de fraqueza que ele sentia. Tudo estava indo por ralo abaixo, como se houvesse a possibilidade de um novo recomeço. Ela, que gostava de ficar deitada na podridão do verde musgo, esperava pela volta daquele que entrara em sua vida e a surpreendera repentinamente. Voltei, disse ele. Mas não houve resposta. A garota dormia profundamente no sofá. O silêncio mórbido daquela casa parecia um tormento. Pensou em ir embora sem avisar, mas pensou que não seria uma boa atitude. Deitou-se apertadamente no sofá verde musgo e adormeceu também. A escuridão começava a invadir a sala em que estavam aqueles dois.
Quando acordaram, olharam profundamente nos olhos um do outro e sorriram. Parecia que se conheciam a muito tempo, como se fossem grandes amigos. Acho que está na hora de eu ir, disse ele gesticulando com a cabeça para a porta. De sol, de luz, a voz desse homem parecia nublada por todo o ambiente pouco clareado em que estava. Tudo bem. Ele sorriu. Ela também. Abraçaram-se demoradamente e naqueles poucos segundos o mundo pareceu girar mais devagar enquanto sentiam o toque carnal de cada um.
Ele foi embora depois de um leve aceno. Ela apenas sorriu. Ele colocou as mãos nos bolsos da calça enquanto caminhava e pensou que era uma pena uma mulher como aquela não querer se apaixonar novamente. Ela, após fechar a porta ficou contemplando o sofá verde musgo onde estivera aquele homem que se enjoava fácil das pessoas. Pensou que era uma pena um homem como aquele não querer acreditar mais nas histórias de amor verdadeiro.
E tudo ficou assim. As palavras que foram ditas de forma precipitadas e os pensamentos que ecoavam como negras nuvens em seus pensamentos.