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Última Cartada

18 fev

A vida é um jogo. Aqueles que se distraem por alguns segundos, xeque-mate.

Como num jogo de xadrez, há a necessidade de pensar. Quanto mais você pensa, mais nervoso você fica. Se você não pensa numa estratégia, você perde. A vida também é assim. Você pensa, pensa e pensa e no final acaba deixando tudo pra depois. O ser humano é movido pela engrenagem sentimental chamada interesse e a peça fundamental para a movimentação desse mecanismo são as conseqüências. Aquelas que estão distantes de nosso tempo e que nos fazem querer procrastinar a todo momento. Procrastinar nada mais é do que você foder com a sua própria vida. Jogar nas mãos de outras pessoas, jogar para o tempo, para o destino, para o horóscopo, para Deus. Viu só? A vida é um jogo. Um jogo de passe e repasse.

Como num jogo de poker, há a necessidade de blefar. Quanto mais você blefa, mais amedrontado o seu inimigo fica. Se você não sabe blefar, você perde. A vida também é assim. Cheia dos mistérios e do interesse de saber o que o outro está pensando. Sim, e esse interesse é aquele que nos faz querer procrastinar. Blefamos o tempo todo. Adiamos o tempo todo. E o ato de mentir e querer sair invicto de tudo prevalece constantemente na vida, no jogo.
No jogo da vida.

Cartas na mesa. Apostas feitas. Blefar até ganhar. Pensar até morrer. Jogar para viver.
Durante essa trajetória através dos anos corridos, somos surpreendidos por aquilo que às vezes nos faz parar de blefar por alguns instantes. O medo. Medo de perder, medo de mentir, de apostar, de continuar, de errar. Aqueles que estão em nossa volta nos dizem que se aprende com os erros. Na verdade, apenas aprendemos a não cometer erros tão babacas como antes. Erramos pela vida inteira.
Você finge que não erra. A vida finge que é fácil.
O medo, um desconhecido que chega repentinamente e nos consome por dentro, fazendo com que fiquemos calados para não falar, cegos para não olhar e medrosos para não sentir. A partir daí as coisas ganham novos ares.

A incerteza do futuro, a angústia do passado e a insatisfação do presente deixam as dúvidas pairarem sobre ar que respiramos. Dúvidas misturadas com monóxido de carbono dos automóveis que entopem as ruas, as estradas, as cidades, as nossas vidas. Comemos poluição com incertezas. O gosto ruim do talvez nos faz cair em reflexões. Reflexões que criam as imagens sobre desejos. Quero fazer isso, comprar aquilo, amar aquela, usufruir disso. Apenas desejos reprimidos que nos deixam assim, estáticos e patéticos.

E quando se supõe que as coisas estão chegando ao fim de um desmoronamento, elas estão apenas começando. A única certeza que temos é que a senhorita chamada morte chegará algum dia. Esteja ela com uma foice ou com um lenço branco sobre a cabeça, pegará aquilo que nos é de maior valor e carregará embaixo dos braços como se fossem meros brinquedos. O jogo chamado vida que brinca com os bonecos de carne e osso em um frenesi constante. Sem um save ou load game.

Por fim, é melhor não se distrair por poucos segundos.

O game over pode chegar a qualquer momento.

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Abdicação do impossível

10 fev

Olhar para aquela caixa guardada cheia de objetos, bilhetes e cartas no meu armário é o mesmo que olhar para as fotos reveladas pregadas na parede azul de meu quarto. Sinto a nostalgia chegar, um buraco no peito começa a crescer. Relembrar o passado não é uma coisa fácil, principalmente quando ele está cheio de marcas. Não falo de marcas doloridas em carne viva ou em cicatrizes quase fechadas. Falo sobre marcas de felicidade, simplicidade. De amizade. De vocês.

Tento refugiar-me de toda essa angústia pensando no futuro. Em um futuro não tão distante. Vejo situações diferentes. Pessoas diferentes. Comportamentos diferentes. Estamos mudados? Quase certeza. O passado e o futuro estão tão entrelaçados como uma bola de neve que não consigo definir qual dos dois entristece-me mais. Talvez ambos.

Minha única válvula de escape é o presente.

Presente.

O presente que se tornará o pretérito perfeito em minha vida. Momentos que serão vividos com perfeição ao lado de vocês estão chegando. Apesar disso, há aquela melancolia que me espera de braços abertos com um largo sorriso no rosto. Sinto medo. Sinto-me pequeno diante desse sentimento de tamanho descomunal. Aproximo-me dela. Ela me abraça com força e disfarçada frieza. Sinto gotículas de água se acumular em meus olhos, querendo transbordar. Não quero deixá-las saírem de mim. Elas me pertencem. São de minha propriedade. Sinto-me egoísta. Não quero chorar.

Acabo voltando para aquele ciclo vicioso. Não consigo desviar-me do futuro. O futuro do presente. O futuro do pretérito. Tudo tão distante e tão próximo ao mesmo tempo. Os momentos vividos e os que ainda estão por vir parecem querer confundir minha cabeça. Torná-la frágil diante de tudo o que quero sentir. Tenho o desejo de parar o tempo. Quero congelá-lo. Quero viver esses breves momentos para toda a eternidade.

Eternidade.

Tenho medo dessa palavra. Ela é perigosa. Tão simples e de efeito colossal que é capaz de me deixar coberto por reflexões, fazendo com que eu queira abrigar-me próximo a vocês.

Olhar para vocês e sentir a alegria no ar, faz-me forçar os lábios a contraírem-se em meia lua. Quero ser egoísta o suficiente para guardá-los em um mundo só meu. Quero sentir o vento tocar meu corpo e fazer-me esquecer da vastidão deste mundo. Quero lembrar-me apenas de vocês. Sentir que minha existência está completamente entrelaçada na fita métrica finita chamada vida e que nesta se encontra os rabiscos de tuas presenças. Quero ver o longínquo horizonte diante de nós. O horizonte onde todos os dias o sol insiste em nascer e morrer. Quero ver o azul intenso e abatido do mar. A força e o reflexo das ondas que parecem querer fugir daquela imensidão de lágrimas.

Lágrimas.

Afogar-me-ei nelas.

Incomodo-me com essas lágrimas que estão a molhar o papel em que escrevo, deixando-o levemente enrugado. Por que escrevo? Porque não sei demonstrar sentimentos em gestos. Talvez seja melhor em palavras escritas. Quando não se sabe demonstrar o amor que se sente para aqueles que realmente se ama, melhor ficar quieto e apenas escrever.

Escrever.

Palavras que talvez sejam de mera insignificância, mas que talvez com um toque de seja lá o que for tornam-se bonitas. Sim, bonitas. Ainda estou a derramar-me em prantos. Ainda estou a pensar no passado e no futuro. Não consigo desprender-me de ambos. Nem do presente. Nem de vocês.

Sou fraco e frágil, diante de tudo isso que vivo e viverei. E digo-lhes que talvez tudo isso não passe de puro egoísmo.

Sim, talvez. E é esse talvez que circunda os primórdios da existência humana, deixando-a repleta das dúvidas. Dúvidas que acabam fundindo-se à rotina de minhas retinas, afundando-me em reflexões. O sentimentalismo talvez frágil que me consome pode ser demasiadamente fraco diante de tudo isso que escrevo. O sentir que acaba tornando-se mais intenso que o viver, deixando minhas confusões virem à tona diariamente. Fico tão confuso que apenas escrevendo, tento utilizar-me das palavras como simples brinquedos em minhas mãos para tentar demonstrar em escritas aquilo que se chama ‘amizade’. Palavra que se funde com a presença de vocês, que me deixa mais vivo e me faz perceber que aquilo que eu sempre duvidei, realmente existe. E o que eu sempre duvidei foi a existência daquilo que o Homem denomina como ‘amor’. Esteja ele “com açúcar, ou com afeto”, quando se descobre o verdadeiro significado de ‘amor e amizade’, talvez qualquer ser humano passe a dar valor ao que se chama de existência.

Quanto ao “Eu amo vocês”, poderia ser dito sem nenhum vestígio dos “talvez” que circundam minha vida cotidiana. Mas como me considero um covarde por não ter coragem em pronunciar tais palavras diretamente a vocês, fica por escrito.

Sem mais.

 

 

 

Pequeno contato com o mundo

18 dez

Pessoas com pressa e aquele calor quase sufocante. O sinal verde, carros buzinando e mais pessoas apressadas atravessando as movimentadas ruas. Na praça, bancos ocupados. Pessoas fumando, comendo, bebendo, conversando e até mesmo dormindo.

No meio de toda essa movimentação, surgem aqueles olhos levemente arregalados. Um verde intenso, profundo e claro. O fascínio era o que os descrevia. Fiquei encantado. Demonstrava espanto ou curiosidade. Na verdade não sei. Gostaria de saber o que pensava. Olhava tudo em sua volta sem fixar os olhos em nada. Estava descobrindo o mundo talvez. Começava a se encantar com as cores, formatos e expressões à sua volta. Dentro de si, o mundo era fantástico e imprevisível. Em breve, começaria a ter uma vontade inabalável de sentir as coisas como elas realmente são. Necessitaria tocá-las e julgá-las.

É uma pena que daqui alguns anos, esteja como nós. Aquela vontade de descobrir o mundo e seus mistérios, logo desaparecerá. Se encantar com os fatos em sua volta, não passarão de meros acasos. O mundo se tornará algo evidente e totalmente previsível.

De repente, seus olhos encontraram os meus. Apoiada no colo da mãe e olhando sobre o ombro da mesma, abre um pequeno sorriso simpático. Acho que nunca tinha visto um estranho como eu.

Bebês são seres extraordinários e imprevisíveis. Apenas enquanto são inofensivos, é claro.

 

 

 

O estranhamento quase frenético

4 dez

A cada segundo, minuto e hora do seu dia, talvez você não estranhe estar vivendo em uma esfera cheia de água com terra no meio de uma escuridão infinita. Talvez também não acha estranho os algodões com determinada forma juntamente com uma bola de fogo acima de sua cabeça, frente aos seus olhos.

Não estranha estar andando no meio da rua e se deparar com diversos seres da mesma espécie que você. É tudo tão constante que não há tempo pra pensar. Também não acha estranho o fato de ter saído de dentro de outra pessoa, nem pelo fato de já ter sido minúsculo.

Só pelo fato de estar vivo não acha estranho o ato de comer outros seres pra viver, nem pelo ato de tirar coisas verdes da terra. Não estranha o número constante de seres minúsculos entrando em seu organismo a cada vez que respira, que coloca o dedo na boa, nem a poluição invisível acumulada nos poros de sua pele. Por mero a caso, possui um par de esferas que tem a capacidade de identificar várias cores e dimensões.

Você trabalha, consome, estuda, come e dorme. Não estranha estar vinculado a uma rotina. Para pra pensar; Por que estou fazendo isso? Ah, droga, já é noite e preciso dormir. Não estranha o queijo branco furado com um coelho em seu centro (que eu nunca consegui ver), rodeado de pequenos pontos brilhantes.

Tudo é assim e pronto. Não há necessidade de refletir, afinal, sequer estranhamos estar vivos.

É o óbvio circundando o homem e sua existência.

Ponto final.

 

 

 

Saudade e mais saudade

13 nov

Saudade de quando com dois reais eu me sentia rico. Saudade de quando eu não precisava me preocupar com os problemas da vida. Saudade de quando não havia espinhas. Saudade de quando o triângulo era apenas uma figura e não um monte de cálculos. Saudade de chegar em casa e não precisar me preocupar com infinitas lições. Saudade de quando o mundo parecia inocente. Saudade de quando vários medos bobos me assombravam todos os dias. Saudade de quando os trovões pareciam querer derrubar o mundo. Saudade de brincar na areia, do enterrar bonecos. Saudade dos tantos peixinhos ganhados da escola. Saudade de brincar de esconde-esconde. Saudade do passar o dia na piscina apenas brincando. Saudade de quando não havia a distinção entre certo e errado. Saudade de brincar, observar e judiar das formigas. Saudade de quando qualquer ato era uma felicidade e não um motivo de chacota. Saudade do saber dançar sem vergonha. Saudade de quando o mundo parecia um paraíso.

Saudade de quando o quarto parecia um espaço sem fim. Saudade do andar de bicicleta com o irmão. Saudade de quando as filas eram sinônimos para mais tempo para brincar e não de dores de cabeça. Saudade de quando não tinha conhecimento da hipocrisia do mundo. Saudade de comprar balas e salgadinhos e me sentir super alegre como se fossem ouro e não comprá-los apenas por gula. Saudade de quando dez reais pareciam cem. Saudade de quando achava que tudo duraria para sempre. Saudade do deitar no colo da mãe pra dormir. Saudade do sentir medo e ir dormir com os pais. Saudade de quando as pessoas pareciam realmente encantadoras. Saudade de promessas aparentemente sinceras. Saudade do não ver o tempo passar. Saudade do pensar em não estar sendo tragado pelo mundo. Saudade do não precisar nem saber procrastinar. Saudade da infância, do passado, de tudo. De você.