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Que se tudo fosse assim, assim mesmo – última parte

21 set

E mais uma vez – como tantas outras vezes que o fez sem perceber – ficou parada na calçada. Sentiu a sensação de ter acordado de um sonho. Ou então, a sensação de passar de um sonho para outro repentinamente. Tá se sentindo bem, perguntou ele. Tô, só foi uma vertigem estranha, estamos quase chegando. Saíram ambos do bar. Os primeiros reflexos solares começavam a se fundir com as neblinas que pairavam entre aqueles amontoados de edifícios que se estendiam infinitamente pelas grandes avenidas. O cheiro de mijo, esgoto, cigarro e gasolina inundavam aquela cidade. Era a podridão típica das urbanidades. Enquanto caminhavam por aquelas ruas, continuavam a conversar sobre o tédio que invadia as suas vidas rotineiras. Ele, sentindo a presença da jovem moça ao seu lado, tinha medo de fazê-la enjoar de todas as suas histórias que pareciam banais. Queria mesmo é tocar naquelas belas mãos, que pareciam ser macias como plumas e levá-las até seu rosto. Ela, também sentindo a presença daquele belo rapaz ao seu lado, tinha receio em dizer algo que o deixasse encabulado, pois afinal, estavam ambos na mesma situação e queriam livrar-se daquilo de qualquer maneira.
Não viram o tempo passar enquanto caminhavam e chegaram rapidamente a casa dela. Morava sozinha. Casa pequena. Simples e de muros baixos. Não ligue para a bagunça desse muquifo, ela falou enquanto abria a porta. Ele entrou. Um pouco tímido, um pouco cabisbaixo e com as mãos dentro dos bolsos – que agora escondiam aquelas unhas roídas e com alguns pequenos cortes em seus dedos. Olhou em sua volta e viu os raios de sol invadirem as janelas daquela sala que cheirava à cigarro e ao perfume adocicado daqueles belos e longos cabelos. O sofá verde musgo ainda estava lá, apodrecendo no meio da sala a cada dia que se passava. Não precisa ficar assim todo encolhido, pode se sentar aí, disse a moça. Enquanto ela pegava uma garrafa de vinho para servir ao visitante, ele estava na sala admirando a coleção de livros e cd’s da garota. Como diria a minha velha mãe, é uma casa simples, mas um bom lugar pra se viver – disse ela deixando a garrafa sobre a mesa para que o rapaz se servisse. Tem fogo, perguntou ele. Sim, tá aí do seu lado no meio dessa bagunça na mesa do telefone. Obrigado.
Foi então que ele começou a contar porque estava naquela cidade, o porque da mudança brusca em sua vida, que morava sozinho e longe dos pais, que demorava pra se habituar com as coisas novas, que se decepcionava facilmente com as pessoas sem perceber e por isso estava querendo deixar de lado toda aquela história de amor verdadeiro porque todo mundo sempre acaba indo embora de sua vida e no final a única coisa que resta são aqueles pequenos destroços daquilo que te corroeu lentamente. E ela foi ouvindo sem pestanejar e também não acreditava mais naquelas histórias e disse que não queria apaixonar-se novamente.
Posso tomar uma ducha, perguntou ele. Claro que pode. Enquanto os minutos se passavam, a água que escorria pelo corpo daquele homem parecia limpar todo aquele sentimento de fraqueza que ele sentia. Tudo estava indo por ralo abaixo, como se houvesse a possibilidade de um novo recomeço. Ela, que gostava de ficar deitada na podridão do verde musgo, esperava pela volta daquele que entrara em sua vida e a surpreendera repentinamente. Voltei, disse ele. Mas não houve resposta. A garota dormia profundamente no sofá. O silêncio mórbido daquela casa parecia um tormento. Pensou em ir embora sem avisar, mas pensou que não seria uma boa atitude. Deitou-se apertadamente no sofá verde musgo e adormeceu também. A escuridão começava a invadir a sala em que estavam aqueles dois.
Quando acordaram, olharam profundamente nos olhos um do outro e sorriram. Parecia que se conheciam a muito tempo, como se fossem grandes amigos. Acho que está na hora de eu ir, disse ele gesticulando com a cabeça para a porta. De sol, de luz, a voz desse homem parecia nublada por todo o ambiente pouco clareado em que estava. Tudo bem. Ele sorriu. Ela também. Abraçaram-se demoradamente e naqueles poucos segundos o mundo pareceu girar mais devagar enquanto sentiam o toque carnal de cada um.
Ele foi embora depois de um leve aceno. Ela apenas sorriu. Ele colocou as mãos nos bolsos da calça enquanto caminhava e pensou que era uma pena uma mulher como aquela não querer se apaixonar novamente. Ela, após fechar a porta ficou contemplando o sofá verde musgo onde estivera aquele homem que se enjoava fácil das pessoas. Pensou que era uma pena um homem como aquele não querer acreditar mais nas histórias de amor verdadeiro.
E tudo ficou assim. As palavras que foram ditas de forma precipitadas e os pensamentos que ecoavam como negras nuvens em seus pensamentos.

Que se tudo fosse assim, assim mesmo – penúltima parte

30 ago

As luzes de um amarelo morto pareciam esforçar-se para iluminar o pequeno recinto abafado. As nuvens de fumaça giravam em torno das luzes. O cheiro do álcool pairava no ar. Tudo se misturava com o calor humano que entupia aquele formigueiro. Em frente ao balcão, pequenas doses de vodca barata eram levadas aos lábios vermelhos e macios daquela moça de beleza esplêndida. Chamava atenção daqueles que passavam por perto. Estes podiam sentir o cheiro adocicado de seus longos cabelos, de sua pele frágil.
Ainda estava sóbria, mas aos poucos podia sentir o álcool surtir efeito em seu corpo. Um rapaz se aproximou. Posso me sentar ao seu lado, perguntou um moço, dono de um belo sorriso – dentes que se alinhavam perfeitamente nas linhas horizontais de seus lábios e que reluziam ao entrar em contato com as luzes do bar. Se não vier me flertar com papo mole, claro que pode, respondeu. Vestia calças largas, meio amassadas e um pouco velhas. Seus ombros largos, mas desajeitados eram cobertos por uma camiseta de tecido barato. Dessas que são compradas em qualquer brechó vagabundo por aí. Também estava sóbrio. Também tentava se livrar daquilo que o corroia paulatinamente a cada dia que se passava.
Não vou te flertar, tô tentando me livrar de uma coisa que está me consumindo faz alguns dias tá me entendendo, perguntou para ela. Sentia-se tão insegura naquela situação – com um medo colossal de infectar-se novamente – que desejou pegar sua bolsa sobre o balcão e sair correndo bar afora, olhar para o céu e ver que tudo ainda tinha uma solução e que algum dia a encontraria mesmo que esta estivesse enterrada a sete palmos abaixo da terra e também não voltaria mais atrás porque tudo seria daquele jeito e então, acharia outro lugar pra ficar e voltar a beber pra fugir de toda aquela realidade que estava diante dela. Beber era como uma válvula de escape do presente. Sentia-se bem, era seu conforto. Ou voltaria correndo pra casa. Ficaria sentada no sofá verde musgo contemplando o passado como uma idiota. Ficaria conformada com a vida que se passava dentro e fora da sua casa. Tudo ficaria ótimo, tranquilo, marvelous and gorgeous. Mas decidiu que não. Iria enfrentar tudo aquilo, toda aquela situação. Que não seria tão fácil assim, só porque estava sozinha, meio indefesa. Acho bom mesmo, respondeu.
A verdade é que sob aquele ambiente fechado, ambos sentiam-se amedrontados diante de tudo aquilo. Conversaram sobre o que faziam da vida, sobre suas famílias, sobre o tempo, sobre a cidade, que a monotonia do dia-a-dia era uma chatice, que ele sabia algumas filosofias chinesas, que ela se encantou, mas não falou nada, que ela adorava ler sobre filosofia, mas que era um pouco leiga no assunto, que ele se encantou, mas também não falou nada, só sei que nada sei, que ambos riram, que discutiram desde os pré-socráticos até os contemporâneos, que trocaram opiniões sobre o que pensavam sobre isso e aquilo – do racionalismo, empirismo, existencialismo e tantas outras correntes filosóficas. Que ambos contraíram o vírus letal, mas não sabiam, ou não percebiam, ou não queriam perceber. Que já não estavam completamente sóbrios.

***

As ruas se esvaziavam aos poucos. As luzes de neon continuavam a brilhar nas ruas. O chiar de freios e buzinas ao longe. Gritos que ecoavam entre os imensos prédios. A cidade estava dormindo. Em poucas horas, todo o movimento frenético das avenidas voltaria à normalidade. E lá, dentro daquele bar, ainda estavam aqueles dois.
Tá ficando tarde, tá afim de ir pra minha casa, ela perguntou. Ele achou estranho o convide de uma dama – que estava na mesma situação que ele, que tentava fugir dos mesmos problemas – ou pra ser mais preciso, do mesmo problema – mas acabou aceitando meio receoso, meio indefeso.
Sei lá. Pode ser, respondeu.

Que se tudo fosse assim, assim mesmo – antepenúltima parte

15 ago

Tinha decidido que seria daquele jeito. Acordou ao som do despertador que marcava onze e quarenta e sete. Olhou em sua volta. Os reflexos solares já invadiam seu quarto. Será assim e ponto final – pensou consigo mesma olhando-se nos olhos em frente ao espelho do banheiro. Os olhos ainda estavam sonolentos, pesados, mortos. A água, gelada. Parecia que estava levando seu rosto contra um monte de neve. Ao erguer o rosto, achou que a mulher do outro lado do espelho estava mais reluzente, mais bonita se comparada aos dias anteriores. As garrafas de vinho ainda estavam sobre a mesa da sala.
Naqueles dias, ela vagava pela casa e pelas ruas sem rumo, sem destino, sem fim, sem ninguém. Naqueles dias, ela só sentia o gosto forte do café, queimava por dentro com o gosto do vinho e se desintegrava com o gosto salgado das lágrimas. Naqueles dias, o gosto ácido do pós-vomito lhe corroia a garganta por grande parte do tempo. Tentava vomitar sua alma, expelir seu amor. É isso. Naqueles dias, vomitava o amor. Tentava livrar-se daquele que já causava efeitos colaterais em seu corpo putrefato. Naqueles dias, sentia asco de si mesma. Agora, de súbita vontade, decidira que mudaria aos poucos.
O pacote de cigarro barato estava sobre a mesa da sala, jogado no meio das taças, das garrafas e dos cacos de vidro. Quem sabe não encontraria vestígios de seu coração ali no meio de tantos destroços. Ultimamente sentia-se tão vazia por dentro que teve medo de encontrar alguma parte de si mesma no meio daquela imundície. Ao olhar para o sofá verde musgo que parecia estar apodrecendo a cada dia que se passava, lembrou-se de quando ficava sentada com aquele homem sobre seu colo conversando por vários minutos dos dias que se passavam lentamente sem sequer notar a frenesi constante que invadia a sua vida repentinamente. Gostava de acariciar sua cabeça, sentir os fios grossos e curtos do cabelo daquele que aparentava ser um muleque qualquer, mas na verdade era apenas alguns anos mais velhos que ela. Gostava de experiência camuflada em jovialidade. Gostava de puxar com força o cabelo daquele que pesava como chumbo quando estava sobre seu corpo. Gostava do roçar de pele molhada, das unhas cravadas nas largas costas de seu parceiro, do sussurrar de palavras, baba, gemidos, hematomas. Gostava de acordar no dia seguinte e ter a marca do dia anterior no corpo. Pelo menos era um meio de recordar de tudo aquilo que acontecera. No pescoço, na barriga, na virilha. Era dessas. Um pouco de dor não faz mal a ninguém.
Queria sentir-se renovada em tudo. Arrumou o cômodo aos poucos. Pegou um cigarro. Tô querendo parar de sentir isso, porque quando eu o sinto acabo falhando comigo mesma – pensava. Antes de uma primeira tragada, um primeiro suspiro de lamentação. Não haviam palavras para serem proferidas. Só queria fechar os olhos e falecer por poucos instantes. Só queria esquecer-se de tudo aquilo que acabara em alguns dias atrás. Só. Esquecer e deixar de sentir uma coisa que te corrói paulatinamente é pedir muito?
Enquanto o cigarro sucumbia entre os seus dedos, ela encarava seus pés miúdos. A pele branca quase pálida reluzia com os raios solares que invadiam a sala. As unhas estavam pintadas com um vermelho escarlate. Aquele vermelho que é provocativo aos olhos do observador. Que dá cobiça, e uma vontade de morder os lábios. Sua pele era lisa, bem cuidada. Se comparada com as outras mulheres de sua idade, diria que ainda não fora engolida pelo tempo.
Depois de tanto refletir, o cigarro amorteceu sobre o cinzeiro. Após arrumar os vestígios, ficou tanto tempo contemplando o passado se esvaecer da sala que não percebeu o sol se pôr. Decidiu que naquele dia, andaria pelas ruas sem destino definido. Qualquer barzinho ou restaurante seria de bom grado. Seria o suficiente para esquecer-se parcialmente daquilo que durou quanto tempo mesmo? Míseros onze meses.
Era sexta-feira. Dia sagrado para quem deseja sair para a farra e esquecer-se da vida difícil do trabalho cotidiano. Dia em que a noite fica agitada. Em que a cidade ferve como um formigueiro. As luzes de neon que brilham nas ruas. O chiar de freios. As buzinas. O cheiro de monóxido de carbono entupindo as avenidas e poluindo as narinas de quem respiram. O som alto. Gritos. A gripe do amor está em toda a parte. O vírus também. Quando você menos esperar, estará infectado por.
Gostava de vestido justo, que realçava a sua beleza e deixava em destaque a sua beleza quase morta. Negros, que colavam em sua pele e dançavam com as suas curvas corporais. Batom vermelho em lábios carnudos. Gostava de salto alto. Put your heels and change your night. Cabelos negros e escorridos. Vermelho, Preto e Branco. Acendeu mais um cigarro e abriu a porta de sua casa. Seguiu andando, deixando o sofá apodrecendo na sala e o passado em pequenos fragmentos no saco de lixo.

Altas Horas Perdidas

28 jan

Como se eu desse tanta importância por eu estar nessa situação em que me encontro. Você deve estar se perguntando ao que estou me referindo. Fisicamente eu até diria que estou bem. Corpo cuidado, lavado e cheirosinho. Espiritualmente é que não está nessa situação. O por quê? Faço-te essa pergunta também. Talvez seja por causa dos anos vividos e a podridão neles contidos. Podridão que talvez você não entenda. Pelo menos eu acho que não entende. Hoje em dia tudo é tão precoce. Você é precoce, meu bem. Foder com a vida também o é.

Se eu me sinto ruim por estar do jeito que estou? Já disse que não, caralho. Meus conhecidos que estão naquele barzinho decrépito ali são melhores do que você, queridinho. Melhores que os seus amiguinhos playboys que são loucos pra bater em prostituta ou em travesti ou em qualquer bicha que anda nas ruas durante a madrugada. Esses riquinhos ordinários que não tem nem dezoito anos e vem querendo bater ou comer qualquer buceta ou cuzinho disponível. Só pagar, trepar e pronto. Fácil, fácil. Trepar é feio? Fazer amor está bom pra você? E se bobear alguns desses panacas aí que se auto-afirmam super heterossexuais estão doidinhos pra levar uma dedada, mas isso não vem ao caso.

Sabe por que eu acho que aquele meu pessoal é melhor que o seu? Porque não estamos tão entrelaçados nessa bosta que você vive. Não entendeu? Quer que eu desenhe? Olha bem para o que está em sua volta, bem estampado na tua cara, querido. Está tudo em frente aos seus olhos e você com a sua turma não notam porcaria nenhuma. Sabe por quê? Porque é tudo cambada de iludido e folgado. Estão satisfeitos com o que tem e não querem mover um dedo sequer, muito menos um pêlo do seu orifício moribundo. Ai, já sei, não sabe do que estou falando. Mas é bobinho ainda coitado. Tão inocente e tão novo. Você é bem bonitinho até, mas é muito burro. Tem muito a aprender com esse mundo, com essa sociedade.

Quero acender um cigarro, me dê um minuto. Estou sendo mal educada? Me desculpa. Então, aceita um? Ah, sua mãe não deixa você fumar? Está certo, é melhor pra você, se não quiser ficar com um pulmão podre como o meu. Podre igual a escuridão dessa noite, está vendo? O cheiro de mijo na rua, os ratos andando nas ruas como se fossem gente e aqueles corpos caídos ali, que daqui algumas horas se levantarão pra perambular pelas ruas e serem discriminados pelas pessoas. Mas voltando ao assunto, eu sei que não tem volta. Estou condenada pelo vício nesse sedativo que me acalma a cada vez que dou uma tragada. Mas não fique tão tranqüilo, você está condenado do mesmo jeito que eu, só que a única diferença é que o que te condena é a corrosão pelo tempo. Sim, você vai ficar velho e vai querer fugir disso. Claro né, todo mundo quer ficar jovem e belo pela vida inteira. Ficar velho e inútil é o mesmo que ser um nada pra essa bosta em que vivemos. Aliás, eu existo. Você existe. Somos pedaços de carne em movimento, mas pra você existir, basta ter a porra de um papel verde porque se você não o tem, não existe. Admito que às vezes me sinto totalmente inútil diante desse pedaço de papel. Acabei perdendo o meu. Estou pouco me fudendo pra isso, porque dá muito trabalho pra providenciar outro. Você está falando com um ninguém, cuidado. Ninguém mesmo, muita gente me considera uma indigente. Exceto pessoas como você, que vem atrás sem chamar. Sem contar que tenho que gastar uma graninha pra conseguir fazê-lo novamente e você sabe muito bem como eu consigo uma graninha, não é? Só ter um corpo gostoso e malhado como uma Angelina Jolie e ficar quase nua na rua que qualquer carro pára pra te cantar. Aliás, nem precisa ter um corpo esbelto, porque olha só pra mim. Estou mais pra um pedaço de pau seco, mas mesmo assim consigo grana. Olha para aquelas minhas amigas barangas ali também, tudo graveto sem peito, sem bunda. Não precisa ter peito ou bunda grande, é só ter uma xana que qualquer macho vem querendo pagar.

Contei muita coisa né? O que você veio fazer aqui mesmo? Ah, veio querer pagar pra perder a inocência do seu caralhinho? Quantos anos você tem? Quinze? Nossa, bem novinho mesmo. Sabe, eu até treparia com você, ou até mesmo pagaria pra dar uma boa transa, mas eu não quero. Você pode pegar qualquer garotinha da sua idade louca pra dar. Na escola tem de monte, é só você abrir os olhos que encontra. Se eu já cheirei? Claro, comecei aos treze anos. Meus pais não viviam em casa e eu era louca pra ir a festas com gente bonita, daí me ofereceram e pensei que conseguiria parar por vontade própria, porém, na verdade não é bem assim. Hoje estou mais light com o assunto, mas uma época além de cheirar eu necessitava de umas três picadas por dia, sim. Perdi a inocência com uns quinze também, que coincidência não é? Perdi por causa do vício, necessitava de grana. Conheci meu primeiro namorado no ponto também. Era um puto, literalmente. Se ele fodia com as mulheres? Muito. Até eu terminar com ele porque o flagrei fodendo com um cara. Daí acabei mudando de concepção sobre o que existe em nossa volta. Tudo o que parece não é. Aprenda isso, meu querido.

Falei demais, mas você entendeu por que espiritualmente estou ruim? Não? Que adianta ter um rostinho bonito e ser tão burro desse jeito. Deus meu! Vai embora pra tua casa e reflita, honey. Olha o que está em sua volta, para aqueles vagabundos naquele bar, para as pessoas em sua volta, tudo. Eu disse t-u-d-o. Seu dia a dia, sua vida, sua casa, seu bairro, sua cidade, seu estado, seu país. O mundo, caralho. Acho melhor parar de pensar que a vida é só trepar, gozar e amar. Não, não é. Se bem que amar também às vezes dói demasiadamente. Mas acabei me esquecendo, você é bem novinho, little boy.

Aliás, preciso ir embora porque já está amanhecendo. Preciso me recolher nas sombras do dia pra recuperar o tempo perdido, ficar nas entrelinhas disso que a gente vive, na minha recôndita vida. Perdi a madrugada e dinheiro por causa de você. Vou embora a pé, e você? Ah é, você tem o carro do teu pai emprestado. Não disse? Tudo muito precoce hoje em dia, meu querido. Isso chega a me deixar enojada.

Tanto tempo conversando e nem nos apresentamos. Seu nome, please? Rafael? Prazer, o meu é Raquel.

***

Mas espiritualmente pode me chamar de realidade também.

Aquela que você paga, consome, trepa, se ilude e se fode. Talvez se apaixona ou desenvolve uma DST e acaba se auto-corroendo aos poucos. Tudo isso em um breve instante. O breve instante que se chama vida. Dentro disso não há questionamentos, nem tempo pra nada. Apenas uma movimentação automática pelo cotidiano. O tempo te deixa com rugas, você fica inútil e depois o corpo em lenta decomposição é abraçado por aquele sono que ninguém que ter. Aquele sono eterno chamado morte. A partir de então, você é descartado da multidão como se fosse uma bolinha de papel amassada. Simples e fácil.

O que a vida não é conosco.